17
Ago 10

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Estende o manto, estende, ó noite escura,

enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem c'o pesar dum desgraçado,
a quem nem feições lembram da ventura.
Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha desventura.
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n'ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.
Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa!
Filinto Elísio
publicado por RAA às 23:27 | comentar | favorito

O OUTRO

Eis aqui o chão antigo,
tão gasto e liso de andado.
Eis aqui limiar amigo
que mortos pés hão cruzado.

Na cadeira ela sentada
para o lume se sorria;
e dele a vida brincada
no fogo se consumia.

Criança, em sonhos dancei;
feliz o dia passou,
dourado brasão de um rei.
Mas nenhum de nós olhou.

Thomas Hardy

(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 19:25 | comentar | favorito

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Quão tarde se sente,
quão tarde se entende
quanto bem depende
de fugir da gente!

Frei Agostinho da Cruz
publicado por RAA às 15:36 | comentar | favorito

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Um sedativo, uma ambulância, um hospital. E
a memória branca. O céu, o mundo. E noites sobre
noites. E o mar. Escutavas sua voz quando escutavas,
de anjos e de santos, o cantar. Escutavas o rumor
da terra. Rosas, rosas, rosas.


Carlos Matias, Estoril, 2004
publicado por RAA às 14:40 | comentar | favorito

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Não são muitos os que abrem, ou alargam, um caminho. A maioria
faz seu o de outros. Alguns, poucos, aguardam que o caminho
se instale no seu coração.
Casimiro de Brito
publicado por RAA às 12:05 | comentar | favorito
17
Ago 10

A MULHER ILUSTRADA

O inverno traz manhãs baças pelo vidro
e o frio vai-me desenhando na pele tatuagens
que resistem à superfície antes de se afundarem
na parede dos ossos. Desenham-me o riso na pele fina
das crianças, as olheiras por cima da noite em claro,
as rugas vincando o teu rosto como um mapa do metro,
as varizes desenhando nas pernas o que te ia nos braços.

O homem do quiosque sorri pelo vidro, o cheiro do café
atravessa a rua como bálsamo sobre o corpo em chamas
nesta manhã de inverno. As tatuagens desenham-me a pele
enquanto nos tocamos sob o aroma do café.
É fácil perdê-las, a pele não guarda vestígios,
mas abre-se para dentro e deixa nos ossos um visco
espesso, um vómito coberto pela maquillage.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 10:58 | comentar | favorito