18
Ago 10

NOME

Não eram lírios os lírios
caídos na areia, caídos
na areia roxa da noite
quase noite.
Não eram lírios, não eram
como tua sombra, eu sei,
mas eram muito mais lírios
que os lírios. Por isso
de lírios os chamarei.

Olga Savary
publicado por RAA às 23:12 | comentar | favorito

ROSAS E CANTIGAS

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? -- Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.

Afonso Duarte
publicado por RAA às 19:17 | comentar | favorito

DE UMA RUA CITADINA

Folhas secas de plátanos
cobrem esta rua. Só assim
me é possível aceitar o caminho
entre as paredes e as casas.

Pisando o pavimento de folhas,
estou salva dos calafrios do medo,
entre janelas que solução e se calam
e portas que aprisionam os corpos.

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 17:52 | comentar | favorito

...

límpidas de dor, velhas
deles, matam-nos assim
que adormecem, servem-se do
machado e não os deixam
muito tempo no sono, não
vão sonhar que agarram a arma
antes que elas o façam, e afirmam
que os lamentam, esmagados,
elas aos gritos.

valter hugo mãe
publicado por RAA às 16:05 | comentar | favorito

MAR MORTO

A JORGE AMADO

A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim.

As ondas fracas contra o molhe são vozes calmas de afogados.
O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,
Mas os barcos que saem podem procurar mais a noite,
E com as suas luzes vão pôr mais estrelas além.
O vento foi para outros cais levar o medo,
E as mulheres que vêm dizer adeus e cantar
Hoje sabem canções com mais esperança,
Canções mais fortes que a ressaca,
Canções sem pausas onde passe uma sombra da morte.
Velhos marítimos, para quem a terra é já a sua terra,
Olham o mar mais distante e têm maior saudade.
Pára o rumor duns remos.
Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...

Penso em todos os que foram e andam no mar,
Em todos os que ficam e andam no mar também,
E a luz do farol, lá longe, diz talvez...

Alberto de Serpa
publicado por RAA às 15:05 | comentar | favorito

...

o vento. o vento, sabes, traz-me vozes que incendeiam vozes.
o mesmo que passa rente à terra da montanha, o vento,
o mesmo vento que lança a noite sobre o telhado da casa.

e o lume, o mesmo lume que iluminava a cara da minha mãe,
o lume, sabes, arde dentro de mim. esse lume é as vozes que
todos esqueceram. esse lume é as vozes dos mortos no cemitério.

os teus murmúrios gritam chamas dentro de mim. não sofro,
sei que o vento é a respiração do mundo. o lume pergunta:
quantas vezes saíste de dentro de mim para me abraçares?

José Luís Peixoto
publicado por RAA às 11:49 | comentar | favorito
18
Ago 10

...

Trovoa na minha cabeça, mas o médico
diz que não é nada. Ecoam vibrações
nos meus pulsos, linhas trocadas no pescoço.
Só pode ser por tua causa, ser desconhecido.
Que me invades carro, casa e coração.
Comboio, táxi, local de trabalho.
Quarto, sala, cozinha, televisão.

Reconheço a penumbra desta garagem
onde vens pôr o carro diariamente.
Marquei as tuas horas na minha memória
e quando à hora certa sinto o barulho
do teu escape atrapalham-se-me as mãos
nas chaves e desengato do porta-chaves
o emblema do carro. Tanto nervosismo
é real? Bom dia, digo, e são já dezanove
e quarenta e cinco, um quarto para as oito.

O teu cansaço é real. Pões agora numa casa
ritmos fáceis, não obedecem a qualquer
contradição, fazem-se porque têm
de se fazer, se tu não os fizeres
quem os fará? Somos dois burros
a lutar cabeça com cabeça, as malhas
do amor enredaram-nos de tal forma
que nos parece tragédia ter um corpo.

Ainda assim te espero como se fosses
um ser desconhecido, para quem eu
preparasse um jantar especial. E repito
a velha imagem de filmes, peças
de teatro, vida real, mostrando o tempo
a passar e a mesa posta para dois.

Vai começar a terceira série do Prison
Break, aproveito a publicidade
institucional para abrir a garrafa,
fatiar a carne. Acendo a vela e ponho
o guardanapo nos joelhos, estou só,
ninguém veio, Quincy Jones tocou
este tempo todo, acompanhado
por uma grande orquestra cheia de estrelas.

Helder Moura Pereira
publicado por RAA às 10:44 | comentar | favorito