19
Ago 10

SILÊNCIO

Pouca terra que me cubra
os ossos, quando morrer.
E sobre a lápide, rubra,
a rosa do Alvorecer.

Poucas palavras me bastem,
seja pobre o meu Dizer.
Até que todas se engastem
nos astros do Anoitecer.

Avelino de Sousa
publicado por RAA às 19:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito

POEMAS DUM CREPÚSCULO

II

Na calmaria da tarde,
Que faz tudo prolongar-se,
Vem até mim mansamente
O embalo triste do mar...

Mar para fazer saudade
Em quem fica e em quem parte...
Mar para dar morte -- morte!...
A quem lá vai buscar vida...

Mar para toda a loucura,
Voz a chamar suicidas...

Balanço nos meus ouvidos,
Ritmo para um verso manso...

Alberto de Serpa
publicado por RAA às 17:39 | comentar | favorito

...

cabra de minha mãe
apenas eu nascido
morreu
deixou-me só
em frente ao universo
depois foi este frio
que sempre me exilou
do viver empalado
na farpa do meu verso

Jorge Marcel
publicado por RAA às 15:47 | comentar | favorito

DA COSTA DE CASCAIS

Aqui, na orla do mar, as cruzes
são sinais de pescadores perdidos
no fundo, mortos, quando buscam
o sal da vida. Em vez de a sua força
fazer ceder a vaga sob o anzol,
é a força do mar ou a paixão da vida
-- arquejante e morta --
que os puxa para um purgatório
de água revolta e de limos.

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 14:14 | comentar | favorito

TÉDIO

Aqui à mesa do café
vejo quem sai
com pressa, de corrida...

Aqui da mesa do café
vejo quem entra,
olhos sossegados que
procuram alguém para conversar.

Calmo, passeio o olhar
por chávenas e copos...
estala-me ao ouvido
o tinir dos vidros
no ar eleva-se o fumo de cigarros...
Perco-me no tempo sem distância.
Companheira minha, a ausência...

Moscas suspensas, no ar aborrecidas como se ali
estancara a vida.
O tédio cerca todos como fumo,
sono, sonhos, letragia...
De súbito, uma voz grave ao fundo:
-- Uma bica.

Joseia Matos Mira
publicado por RAA às 12:05 | comentar | favorito
19
Ago 10

DISTÂNCIA

hoje sinto-me bem disposto
vou aguardar que o sol
ressurja detrás das nuvens

cães ruivos de pêlo longo
correm
e a cada passada
se aproximam do voo

as tílias esperam
e os pardais preparam bem
a luz

talvez sejam horas de regressar
talvez sejam horas de ficar aqui

Daniel Maia-Pinto Rodrigues
publicado por RAA às 10:42 | comentar | favorito