20
Ago 10

NÃO QUERO PERDER O NAVIO EM NOVA ORLEANS

Não quero perder o navio em Nova Orleans.
Não quero perder o navio.
Quero subir este vasto e fundo Mississípi
Que foi sonho da minha vida aventureira.
Quero subir o rio de margens baixas, verdes,
O rio lodoso que rasga um continente
Até ao coração desta cidade em perdição perdida.
Quero subir o rio depois de ter visto nos bars escuros
As mulheres nuas de Nova Orleans.
Quero subir o rio na barca antiga,
Igual à das estampas antigas.
Quero subir o rio que já não tem aventura
Para guardar na memória este pedaço de aventura.
Já não há troncos de árvore à deriva no rio,
Mas eu quero agarrar-me ao tronco de árvore
Que à deriva,
No rio,
Arrasta para o mar
Este sonho de fuga
E de abordagem
E de viagem
E de evasão
Para mundos distantes,
Para cidades exóticas,
Para mares insondáveis,
-- Este sonho de fuga
Que marcou, indelével,
No mapa da vida,
O meu destino.

Nova Orleans, 30 de Abril, 52.

Joaquim Paço d'Arcos
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito

Verbo Austero

autor: Francisco Costa (Sintra, 1900-1988)
título: Verbo Austero
edição: 1.ª
prefácio: Fidelino de Figueiredo
local: Lisboa
editora: Parceria A. M. Pereira
ano: 1925
capa: Martins Barata
páginas: XV+114
dimensões:19,2x13x1,2 (cartonado)
tipografia: Parceria A. M. Pereira


publicado por RAA às 16:55 | comentar | favorito

IMBONDEIROS

Andamos com um arco e uma flor
à roda
dos imbondeiros. Descalços
porque
queremos estar descalços.
Sobe
ao arco a alegria com muitas
cores
dependuradas nos nossos cabelos.
Nada
disto se dissolve em metafísica.
Temos
um arco e uma flor. E isso é que é
divino

Maria Augusta Silva
publicado por RAA às 15:33 | comentar | favorito

1979

muito tempo antes
parece agora breves minutos
as mesmas tardes passadas brincando
os jogos de caixa o estojo das experiências
não podíamos evitar as de explosão
o subutteo a raspar os joelhos
os longos relatos pela rádio noite fora
portugal campeão mundial de hóquei
os duelos do rali serra acima
até o sono chegar à hora certa
e então subitamente a mudança
como era possível algumas pessoas a música
baterem tão fundo ao coração
e disso alguma impossibilidade de partilhar
os segredos profundos da intimidade
traduzindo-se noutra forma de olhar
para quem conhecemos bem ou talvez não
e depois saber que o caminho era em frente
sentir o passado tão forte e não parar
o desejo de descobrir a crescer
recordo ver cair a noite envolvendo
depois de um banho tomado
o cheiro a água-de-colónia espanhola
quando o primeiro calor chegava
finalmente dormir de janela aberta
algum barulho repetido sincopado de carros
embalava ainda mas tudo estava diferente
e de repente já não era a rita coolidge
envolta num mel lustroso
a cantar que lá fora a chuva começara
era joy division a abrir na guitarra
o amor vai dilacerar-nos uma voz profunda
a maior distância era essa
tão forte mas tão pessoal
que não valia a pena contá-la
tão-somente vivê-la e dizer assim
este sou eu e quem vier a conhecer-me
leva-me já

Pedro Strecht
publicado por RAA às 14:38 | comentar | favorito

PRÉ-HISTÓRIAS

Se nos tempos áureos
dos dinossáurios
aparecesse um rinoceronte
no horizonte,
seria como ver surgir hoje um peru
entricheirado na carapaça dum tatu!

Paulo Abrunhosa
publicado por RAA às 12:31 | comentar | favorito
20
Ago 10

...

Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia

Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
tropeço na claridade da primavera
e vou tomar café com muito açúcar

Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade

E quanto tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te num gesto amplo de incertezas
o horizonte com barcos

Daniel Maia-Pinto Rodrigues
publicado por RAA às 10:54 | comentar | favorito