22
Ago 10

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912

Manuel Bandeira
publicado por RAA às 23:47 | comentar | favorito

PARÁBOLA

Um grito de ave corta o espaço
e o voo fere a flor do lago
que não desperta do sonho em que o sonha,
do sonho em que se adormeceu...
o lago escuro como um espelho sem aço
onde já se não olha o céu!...

Branquinho da Fonseca
publicado por RAA às 19:34 | comentar | favorito

REGRESSO

Navio aonde vais
deitado sobre o mar?

Aonde vais
levado pelo vento?

Que rumo é o teu
navio do mar largo?

Aquele país talvez
onde a vida
é uma grande promessa
e um grande deslumbramento!

Leva-me contigo
navio.

Mas torna-me a trazer!

Jorge Barbosa
publicado por RAA às 13:42 | comentar | favorito
22
Ago 10

A BORBOLETA

De manhã bem cedo
uma borboleta
saiu do casulo.
Era parda e preta.

Foi beber ao açude.
Viu-se dentro da água.
E se achou tão feia
que morreu de mágoa.

Ela não sabia
-- boba! -- que Deus deu
para cada bicho
a cor que escolheu.

Um anjo a levou,
Deus ralhou com ela,
mas deu roupa nova
azul e amarela.

Odylo Costa, Filho
publicado por RAA às 03:16 | comentar | favorito