24
Ago 10

ALGAS

No revoltoso Mar vogam, à superfície,
seguindo a ondulação inconstante das vagas
que se vão desfazer numa branca planície,
algas dum verde-escuro, algas de formas vagas.

Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.
Eu cuido que uma força, ignorada e imutável,
as conduz para um porto, ou negro ou resplendente,
onde vão descansar num sossego infindável.

Assim também no mundo, errantes e sem guia,
entre o choro e o riso, entre a vida e a agonia,
demandando, vãmente, o porto que procuro,

eu vejo flutuar meus versos de criança,
tendo, a enchê-los de vida, a cor verde da esp'rança
a que a tristeza dá um tom brunido e escuro.

João de Barros
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito

DESENHOS

as formas do corpo
(alheio)
desenham:

tatuagens na retina
(felinas)

o olhar
segue vidrado
e (ferino)
atira

Frederico Barbosa
publicado por RAA às 19:32 | comentar | favorito

LOSING MY RELIGION

Houve então uma doença
que se seguiu a uma outra
mais antiga: o texto do mundo esgotou-se
e as divisões de todas as casas
pareceram pequenas.

Regressou o tempo da multiplicidade
das coisas, um novo equívoco,
uma existência com o necessário grau
de impureza, de vontade fraccionada,
onde os olhos não sabem nunca
atravessar a mágoa.

Os versos talvez não passem de polaroids,
afastei-me deles, aceitei, armado de coragem,
o coração da cidade, e agora vou ser feliz sem ti
como se acreditasse nisso.

Pedro Mexia
publicado por RAA às 17:27 | comentar | favorito

AMBIÇÃO

Caiu da serra um bloco de granito
que há mil anos poisou sobre a mais alta crista.
Era um deus mineral, faminto de conquista.
Caiu quando alcançava a meta do infinito.

Ninguém ouviu a queixa, o misterioso grito
da mica a esfacelar-se em lascas de ametista.
Homem, árvore e pedra! Há que descer a vista!
A ambição de subir, eis o maior delito!

Mais alto que a montanha a pedra quis chegar.
À gota de água obscura é necessário o mar.
Às estrelas não basta a cúpula dos céus...

E nós, para fugir à nossa humana sorte,
forçámos o horizonte e em frente à própria morte,
num momento de génio imaginámos Deus.

Fernanda de Castro
publicado por RAA às 15:08 | comentar | favorito

NÃO HÁ RESPOSTA

-- Vento do mar! -- que conversaste com as estrelas,
Galopando, correndo em desatino,
Conta-vento do mar! -- por que sonhamos,
E o segredo de nosso destino!

Sopras, nas ondas, esculturas vivas,
Efêmeras imagens fugitivas...
Dize-me por que amamos, esquecemos,
E, sobretudo, por que sofremos!

Faze a revelação maravilhosa
De que não é inútil o gemido
De tanta angústia à cata de consolo,
E nem tudo está perdido!

Fala-vento do mar! -- que o mundo, cego,
Não arderá, entregue à própria sorte,
E que a nossa esperança, de tão alta,
Poderá vencer a morte!

Oliveira e Silva
publicado por RAA às 14:22 | comentar | favorito

OUTONO, NA CASA DAS AREIAS, S. PEDRO DO ESTORIL

Depois de uma noite de chuva,
tudo claro e limpo.
A buganvília, as árvores pequenas,
cada uma com a sua seiva.
Os pardais, os melros negros,
cada um com o seu trinar.
Os insectos, as moscas,
cada um com o seu voar.
Por baixo, insondável a grandeza da terra,
por cima, infinita a altura do céu.
Fácil, entrever a aparência das coisas,
difícil, penetrar na essência do todo.

António Graça de Abreu
publicado por RAA às 12:52 | comentar | favorito

OPERA COMMEDIA

2

À entrada, na mesa polida,
O café frio, na chávena. Baloiça, treme, uma bela rapariga
Escreve num postal (com tanto espanto!)
As gatafunhas de ditongos, as vogais rasteiras
Que lemos primeiro no giz da sua pele,
Nos ossinhos dos dedos, tal o esgar.
É tão hamlética, agoirenta, dementada.
Todos a olham (entre os quadriz e o nariz).

José Emílio-Nelson
publicado por RAA às 11:37 | comentar | favorito
24
Ago 10

LACRIMATÓRIA 9

Puxa-a pelos braços enquanto um cão vigia o
caminho. A folhagem desprende-se com o
movimento e a sua nudez espalha-se pela erva
anunciando um momento de loucura. Um outro
cão surge do mato com uma perdiz na boca e os
dois ficam a olhá-la enquanto uivam. O homem
cobre-a de seda encarnada, deixando que o peito
toque no chão e desse lugar se soltem dois corvos
bravos. Há um cisne que procura chegar-se à água
e garças que aguardam migalhas deixadas pelos
peixes. Tudo se concretiza dentro de uma zona escura,
de uma rede, perto de um precipício, mas o homem
não consegue sequer levantar o rosto com os dedos.

Jaime Rocha
publicado por RAA às 10:23 | comentar | favorito