25
Ago 10

PARA A DEDICAÇÃO DE UM HOMEM

Terrível é o homem em que o senhor
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

Ruy Belo
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito
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AUTO-RETRATO

à Maria Cecília
por razões tão ponderosas
que seria supérfluo aduzir

Olhos desfeitos a ler
palavras apontando para ideias
vezes imensas confusas
inaceitáveis à vista
ao cérebro
à boca que mal as sabe exprimir

Rui Ferreira Bastos
publicado por RAA às 19:52 | comentar | favorito

ORAÇÕES DO AMOR

XXI

Dizem as conchas do mar:
«Não queiras que desça ao fundo
Quem nos deseja roubar.»

E as águas dizem ao mundo:
«Olha, não mandes sondar
O nosso abismo profundo.»

Como as conchas, como as águas,
Digo à minha estremecida:
«Não queiras roubar-me a vida,
Não sondes as minhas mágoas...»

António Fogaça
publicado por RAA às 17:15 | comentar | favorito

CANTIGA DO FOGO E DA GUERRA

Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens semeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co'os pés no carvão
que os deuses acendem luzindo um tição

Pra apagar o fogo vêm embaixadores
trazendo no peito água e extintores
Extinguem as vidas dos que caiem na rede
e dão água aos mortos que já não têm sede

Ao circo da guerra chegam piromagos
abrem grande a boca quando são bem pagos
Soltam labaredas pela boca cariada
fogo que não arde nem queima nem nada

Senhores importantes fazem piqueniques
churrascam o frango no ardor dos despiques
Engolem sangria dos sangues fanados
e enxugam os beiços na pele dos queimados

É guerra de trapos, do pulmão que cessa
do óleo cansado que arde depressa
Os homens maciços cavam-se por dentro
e o fogo penetra, vai direito ao centro

Sérgio Godinho
publicado por RAA às 15:19 | comentar | favorito

A BANHISTA

O cão afasta a onda
E o pêlo liso imita a foca.
Rebolava. Eriçava-se.
A banhista sorriu.
A bóia
Fugiu-lhe das mãos.

José Emílio-Nelson
publicado por RAA às 14:13 | comentar | favorito

...

Corria junto aos ciprestes nas manhãs
de inverno. Roubava ao jardim punhados
de terra para saciar a fome, mas não mexia
nos mortos. Ainda não sabia nada sobre
os pecados mortais nem sobre a ciência
circunscrita dos venenos, coisas mais veniais
ainda. Não conhecia os lugares do medo
e pensava no dia e na noite como realidades
ontológicas. Mas tu disseste-me: a rotação
é o movimento de um corpo em torno
de um eixo. Nesse dia percebi que morremos
como as árvores e que são breves os dias.

José Rui Teixeira
publicado por RAA às 12:16 | comentar | favorito
25
Ago 10

SÚPLICA

Peguei nos sonhos
E fui atando...
Juntei! Juntei!
O aroma é brando...
Tristes? Risonhos?
Tudo! Nem sei!

Sonhos que eu amo
E em que me extingo...
Nevadas flores!
Não vos distingo...
Só vejo um ramo...
Confundo as cores!

Mas tu, que levas
O ramo ao lado,
Sem o pensar,
Queda um bocado!
-- Sacia as trevas
Ao meu olhar!

Dá-lhe um sorriso!
Depois, sem pranto,
Deixa-me só...
Lírio de encanto,
Que nem diviso
-- Porque sou pó.

Queirós Ribeiro
publicado por RAA às 10:51 | comentar | favorito