26
Ago 10

UM SOLDADO DE URBINA

Por julgar dele indigna outra façanha
Como aquela no mar, este soldado,
A sórdidos ofícios resignado,
Obscuro errava pela sua Espanha.

Para apagar ou mitigar a sanha
Do real, procurava o sonhado
E doaram-lhe um mágico passado
Os ciclos de Rolando e da Bretanha.

Contemplaria, posto o sol, o ancho
Campo em que dura um resplendor de cobre;
Julgava-se acabado, só e pobre,

Sem se saber de música senhor;
Atravessando um fundo sonhador,
Por ele andavam já Quixote e Sancho.

Jorge Luis Borges

(Ruy Belo)
publicado por RAA às 23:50 | comentar | favorito

ÁRBOL

Era un árbol sin nombre que en las noches
no en todas las noches sino algunas
se volvía casi fosforescente
como un tic vegetal de su alegría

pero las lechuzas y los murciélagos
y los mochuelos y los búhos
quedaban tan perplejos
que se desvanecían

y sin embargo ello era así
porque aquel árbol albergaba
un sentimiento en cada hoja
y la fosforescencia apenas era
el pavoneo de su corazón

en una noche de tormenta
un rayo se abrigó en su copa
pero ésta no apagó sus luces
y el raio se hizo nada

hay que considerar
que en cada amanecer
el árbol se apagaba
es decir se dormía

a veces despertaba
lleno de pajaritos
pero no era lo mismo

Mario Benedetti
publicado por RAA às 20:41 | comentar | favorito

...

Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
onde há mais resistência, mais se apura.

Cláudio Manuel da Costa
publicado por RAA às 17:08 | comentar | favorito

MIL E UMA NOITES

As palavras que rolam contra as pedras /
nenhuma é igual ao rosto que as desenha,
ao animal que as esconde nos seus ossos.
Cada pedra é uma aldeia abandonada que
mudou de lugar. Cada lugar uma pedra vagarosa
que regressa à existência.

Vagueio pelas casas pousadas no tempo
e o que fica delas
é uma porta entreaberta
que já não guarda nada.
Só a erva cresce, erva toda igual
a um tempo daninho que se arrasta
como pedras
incapazes de subir por um caminho íngreme
ou aceitar a deriva
das vozes que chamam sob a terra
onde ainda existe adubo
para um canteiro.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 15:39 | comentar | favorito

...

acreditar que a pedra é de pedra na superfície rugosa
feita de cinza e xisto de níquel e de prata
e que um astro não se apunhala nem mesmo em caso
de saberes que o níquel se sobrepõe ao fogo
acreditar que depois há uma soma das sombras
que ainda vamos a tempo de saber que a cinza é o xisto
que a geografia das mão é um húmus de singular medida
acreditar nessa mistura de animais e pedras
que de repente se evola o negrume de um barco
para que sempre se provoque a combustão de águas
e nunca permanecer num luar que seja de lodo
e nunca assegurar um branco que cegue e que perfure
acreditar na luz e depois dela na mesma luz secreta
um poema basta para acreditar numa pedra incerta

António Carlos Cortez
publicado por RAA às 14:36 | comentar | favorito

TEJO

O Tejo não era rio, era um cão grande.
Mordia a terra se não ouvia o avô cantar
entre as searas. Ladrava ao céu
ladrava e criava subterfúgios dramáticos.
Eu pensava: está bêbedo. As pessoas
também arranham as sombras do corpo
quando estão bêbedas. Houve
uma páscoa em que o Tejo não arranhou
a sombra não mordeu a terra. Enrolou-se
numa paisagem de cinza. Ficou assim
a vida inteira. E eu a dizer a vida inteira:
creio nas saudades dos cães.

Maria Augusta Silva
publicado por RAA às 12:50 | comentar | favorito

MAJESTIC CAFÉ

No Majestic meninos (e meninas)
Alargam orelhas
Inclinados no estuque.
Azedam natas.
Bebe-se café à chávena.

Majestic Café.

Vidro lapidado agreste
Incita à entrada
E dentro dos espelhos a cismar
Já não se cospe.
Cuspiu-se na latrina.
Mesmo assim gris
Do sopro saturado do café e
Das risadinhas das almas.

José Emílio-Nelson
publicado por RAA às 11:46 | comentar | favorito
26
Ago 10

DO AMOR I

A névoa disse à árvore:
tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe
ser, figura.

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 10:32 | comentar | favorito