29
Ago 10

METROPOLITANO

Na Circle Line,
entre Paddington e Aldgate,
no movimento rápido da máquina,
observo os grandes cartazes que anunciam
a melhor das bebidas, a mais fina das meias,
o mais fantástico dos filmes,
vejo nos grandes painéis o sorriso aberto
e rasgado dos modelos
sugerindo-se a última novidade em disco,
convencendo-nos de que a alegria tem forma
de um fato ou de um sapato,
ou que na pastilha elástica está condensada a felicidade,
passam por mim em cada estação
enormes parangonas que proclamam
a excelência do mundo...

... e fico a pensar,
até que o ruído dos travões me chama,
porque se terá sucidado hoje uma jovem rapariga
em Sloane Square,
na Circle Line,
entre Paddington e Aldagte.

Fernando Cabrita
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito

VISITAÇÃO

Quando morreste, voltei-me para o silêncio
(riam-se os deuses, de mofa, com certeza)
e prometi-te que nunca mais pecava...
Silêncio: claustro de distâncias infinitas,
por onde um monge vai, em penitência,
curvado, mas levantando um círio ardente
que lhe desvenda a noite:
chão de pedra,
nas margens dos capitéis, mortos nas ervas,
e dos votos, rasgados, entre as sombras.

Oh minha mãe, falhei, mas amanhã
eu partirei de novo para a tarefa...
É tua, ao menos, essa ingenuidade.


José Fernandes Fafe
publicado por RAA às 19:31 | comentar | favorito

CDC/DCD

A natureza em conjunto padece
e como o sofrimento muito a cansa
vinga-se em quem primeiro lhe aparece
e para ser maior essa vingança
já a futura morte transparece
no pequenino rosto da criança.

Ruy Belo
publicado por RAA às 16:36 | comentar | favorito
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PASSIVIDADE

Passividade suave e feiticeira
tentou-me, em tua boca mal pintada,
nos teus olhos azuis d'alucinada,
na estopa a rir da tua cabeleira.

Minha arte d'amar pelotiqueira,
deu fogo à tua carne inanimada,
tornando mais gentil e articulada
a boneca que fosses duma feira.

Levando ao ar um braço, eras adeus
a uma estranha mulher que em ti morrera
e cujo busto nu vejo entre véus...

E ao descerrares a acre flor da boca
a tua voz sonâmbula, de cera,
já era um eco d'alma em alma oca!

Coimbra, 1926

Edmundo de Bettencourt
publicado por RAA às 15:02 | comentar | favorito
29
Ago 10

PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas, e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Bocage
publicado por RAA às 02:03 | comentar | favorito