05
Ago 10
05
Ago 10

...

Conheço o turismo dos cemitérios.
Que pouco importa a morte comendo a terra,
Já se ouviu dizer. A que vens?
Ao loureiro umbroso mais a púrpurea hera
A crescer para o céu fascista (de Pound).
À campa (de Morrison)
Aplanada, danificada,
Vigiado por polícias todos crentes
Na ressurreição dos mortos.

José Emílio-Nelson
publicado por RAA às 12:20 | comentar | favorito
04
Ago 10

TEORIA

Sou o que está em meu redor.


As mulheres percebem isto.
Nenhuma é duquesa
A uns cem metros da carruagem.
Eis então retratos:
Uma antecâmara preta;
Uma cama alta resguardada por cortinas.

São apenas exemplos.

Wallace Stevens
(José Antunes)
publicado por RAA às 19:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Ago 10

SOLIDÃO MARINHA

Eu tombei do convés do transatlântico
Em meio às ondas, como num letargo...
Lá se vai o voador -- peixe romântico --
Passam: toninha, méro, anchôva e pargo.

A rolar, tão sòzinho, pelo Atlântico,
Levado, brutalmente para o largo,
Nem da sereia posso ouvir um cântico
Que iluda e enleve o meu destino amargo.

Jangadinha que, ao longe, a vela enfunas,
Enfeitiçada de alegria intensa,
Como um lenço acenando para as dunas...

Dize a todos de terra a minha crença
De lutar, com essas ondas importunas,
E me abismar na solidão imensa...

Rio, 7-11-1945.

Sabino de Campos
publicado por RAA às 11:07 | comentar | favorito
03
Ago 10

PERGUNTAI AO MURO

Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 20:00 | comentar | favorito
03
Ago 10

RITMOS

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux: eu, ervilha e mais ninguém.

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20,
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfoses em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão
só o silêncio frio)

Ana Luísa Amaral
publicado por RAA às 16:19 | comentar | favorito
02
Ago 10
02
Ago 10

APRESENTAÇÃO

Cantar não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
tuas palavras irmãs do fogo
mas só porque as palavras são
apenas chama e vento.
E contudo canção
só cantando por vezes se resiste
só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar
porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas
e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
e a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
dentro dos homens onde ponho
uma espingarda e um sonho.

E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
que traz a tiracolo
uma espingarda carregada de poemas
ou se preferem sou um marinheiro
que traz o mar ao colo
e meteu um navio pela terra dentro
e pendurou depois no vento
uma canção.

Já disse: planto espadas
e transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
que cada homem tem no coração.

Manuel Alegre
publicado por RAA às 14:37 | comentar | favorito
01
Ago 10

BALADA DO SINO

Uma barquinha
Lá vem lá vem
Dim Dem
Na barquinha de Belém

Senhor Barqueiro
Quem leva aí
Dão Dim
Na barquinha de Aladim

Levo a cativa
Duma só vez
Dois três
Na barquinha do marquês

Ao romper d'alva
Casada vem
Dim Dem
Na barquinha é que vai bem

Se a tem guardada
Deixe-a fugir
Dão Dim
Na barquinha do vizir

Lá vai roubada
Lá vai na mão
Dim Dão
Na barquinha do ladrão

José Afonso
publicado por RAA às 22:24 | comentar | favorito

MIRAGENS

I fall, more and more,
Into my own silences.

Theodore Roethke

Os sessenta iam ainda
no início, sem memória
de guerras, revoluções
ou de fluxos migratórios.
A terra aguardava em
silêncio a chegada
das betoneiras, dos patos
bravos. Outras migrações...
Um domingo de manhã,
em Maio, saímos a
explorar lugares ocultos,
pequenas grutas e antas,
mais tarde ameaçadas
pelas aves de arribação.
Os tais patos... bravos, claro.
Olhámos o vale. O
meu pai segurava-me
a mão. À nossa frente o
sítio onde se ergueria,
dez anos depois, a casa.
Casa feita, pêga morta.
Um ditado apenas e
para mim um medo a pairar,
dia após dia, como
se alguma oculta verdade
ali se insinuasse.
Como se o povo tivesse
razão. Enfim, zombarias
do destino. Ou do acaso?
Lá para o fim da manhã,
descobri junto à anta
um minúsculo esqueleto
de plástico. Curiosa
ironia vinda de outras
brincadeiras, porventura
mais inocentes, das crianças
dos bairros de lata. O
esqueleto ainda o vi,
há alguns meses, no sótão,
entre molduras partidas,
velhas cartas sem destino
ou memória, e as
sempre inevitáveis teias
de aranha. Um pequeno
sinal como outros, uma
pedra um nome um sinal só
desses dias; um vestígio
da rua das oliveiras,
no tempo em que somente
elas e o casal de
velhos loucos ali viviam.

Mário Avelar
publicado por RAA às 17:57 | comentar | favorito
01
Ago 10

GOA

Bela, jovem, toda branca,
A vaca tinha longos finos cornos
Afastados como as hastes da cítara
E pintados
Um de azul outro de veemente cor-de-rosa
E um deus adolescente atento e grave a guiava

Passavam os dois junto aos altos coqueiros
E ante a igreja barroca também ela toda branca
E em seu passar luziam
Os múltiplos e austeros sinais de alegria.

Sophia de Mello Breyner Andresen
publicado por RAA às 01:19 | comentar | favorito