30
Ago 10

ORIGINAIS

Repito tanta coisa por dentro da
cabeça. Roda a girar ao longo
de mil letras. Repetidas por dentro
da cabeça. Tanta coisa a girar

como pião, ou verso de criança.
Canção que como roda, ou de roda
já não. Por dentro da cabeça, o
verso é fácil. Produzi-lo depois,

refazer coisas, as mesmas re-
petidas por dentro da cabeça.
A arte do copista por serão.
A arte do poeta, que já não.

Que foi, antes de tudo, repe-
tido. Quando o original:
salteador, bandido. Tudo,
menos vulgar ladrão.

Ana Luísa Amaral
publicado por RAA às 16:56 | comentar | favorito

APANHADOR DE PÉROLAS

Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 14:18 | comentar | favorito

À SOMBRA DAS ÁRVORES MILENARES

Passaram muitos anos mas não passou
o momento único irrepetível
o som abafado do estilhaço no corpo
o eco estridente do ricochete no metal
o cheiro da pólvora misturado com sangue e terra
o sabor da morte na última viagem de Portugal.

À sombra das árvores milenares ouvi tambores
ouvi o rugido do leão e o zumbido da bala
ouvi as vozes do mato e o silêncio mineral.
E ouvi um jipe que rolava na picada
um jipe sem sentido
na última viagem de Portugal.

Vi o fulgor das queimadas senti o cheiro do medo
o silvo da cobra cuspideira o deslizar da onça
as pacaças à noite como luzes de cidade
a ferida que não fecha o buraco na femural
no meio da selva escura em um lugar sem nome
na última viagem de Portugal.

Soberbo e frágil tempo
intensa vida à beira morte
amores de verão amores de guerra amores perdidos.
Uma ferida por dentro um tinir de cristal
passaram os anos o ser permanece.
Fiz a última viagem de Portugal.

16-9-2003
Manuel Alegre
publicado por RAA às 12:47 | comentar | favorito
30
Ago 10

TRÊS PERSONAGENS

Em pleno inverno e no calor de Agosto,
vejo-os passar, na tarde loira ou baça...
Ela, tem distinção, tem certa graça,
certa elegância calma, de bom gosto.

Leva um livro amarelo. Bem disposto,
um galgo inglês, cheio de nervo e raça,
acompanha-a. Sei sempre a que horas passa,
grave, serena, esfíngica; -- ao Sol posto.

Quem é? Quem são?... Nem lhes conheço o nome!
O acaso, por acaso, destinou-me
a vê-los passar juntos, todos três...

Donde vêm? Onde vão? -- Quem o adivinha?
O que eu sei, é que passam à tardinha
ela, o livro amarelo, e o galgo inglês...

Virgínia Vitorino
publicado por RAA às 11:18 | comentar | favorito
29
Ago 10

METROPOLITANO

Na Circle Line,
entre Paddington e Aldgate,
no movimento rápido da máquina,
observo os grandes cartazes que anunciam
a melhor das bebidas, a mais fina das meias,
o mais fantástico dos filmes,
vejo nos grandes painéis o sorriso aberto
e rasgado dos modelos
sugerindo-se a última novidade em disco,
convencendo-nos de que a alegria tem forma
de um fato ou de um sapato,
ou que na pastilha elástica está condensada a felicidade,
passam por mim em cada estação
enormes parangonas que proclamam
a excelência do mundo...

... e fico a pensar,
até que o ruído dos travões me chama,
porque se terá sucidado hoje uma jovem rapariga
em Sloane Square,
na Circle Line,
entre Paddington e Aldagte.

Fernando Cabrita
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito

VISITAÇÃO

Quando morreste, voltei-me para o silêncio
(riam-se os deuses, de mofa, com certeza)
e prometi-te que nunca mais pecava...
Silêncio: claustro de distâncias infinitas,
por onde um monge vai, em penitência,
curvado, mas levantando um círio ardente
que lhe desvenda a noite:
chão de pedra,
nas margens dos capitéis, mortos nas ervas,
e dos votos, rasgados, entre as sombras.

Oh minha mãe, falhei, mas amanhã
eu partirei de novo para a tarefa...
É tua, ao menos, essa ingenuidade.


José Fernandes Fafe
publicado por RAA às 19:31 | comentar | favorito

CDC/DCD

A natureza em conjunto padece
e como o sofrimento muito a cansa
vinga-se em quem primeiro lhe aparece
e para ser maior essa vingança
já a futura morte transparece
no pequenino rosto da criança.

Ruy Belo
publicado por RAA às 16:36 | comentar | favorito
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PASSIVIDADE

Passividade suave e feiticeira
tentou-me, em tua boca mal pintada,
nos teus olhos azuis d'alucinada,
na estopa a rir da tua cabeleira.

Minha arte d'amar pelotiqueira,
deu fogo à tua carne inanimada,
tornando mais gentil e articulada
a boneca que fosses duma feira.

Levando ao ar um braço, eras adeus
a uma estranha mulher que em ti morrera
e cujo busto nu vejo entre véus...

E ao descerrares a acre flor da boca
a tua voz sonâmbula, de cera,
já era um eco d'alma em alma oca!

Coimbra, 1926

Edmundo de Bettencourt
publicado por RAA às 15:02 | comentar | favorito
29
Ago 10

PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas, e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Bocage
publicado por RAA às 02:03 | comentar | favorito
28
Ago 10
28
Ago 10

ORGANISTA

Nas resenhas da penumbra e da bruma, em alguns poemas,
houve a aproximação da morte e do júbilo.
O soprano jubilara, na arte sacra, enquanto ao órgão a personagem
desenha uma figura negra. Os emblemas mortais,
foice e gadanha, representam.
O desconhecido ou alguém configura o homem,
ecce, não cógnito, em figura. Dedilha as teclas,
persigna-te perante o teu sono. Delimita o tempo
do êxtase, o tempo da subsistência, o tempo da configuração.

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 22:51 | comentar | favorito