01
Set 10

INQUIETAÇÃO

Como por uma fenda no tempo
diviso as sombras do que vem depois,
e tenho medo de dizer que entendo
o que está escrito para lá de agora.

E tenho medo como uma criança
que nem do que é agora sabe nada,
por isso me assusta esta esperança
de ver romper a madrugada.

Navegantes do céu e das estrelas,
dizei-me, ao menos uma vez,
não mais as canções belas,
mas apenas se o que será
é tão como o que vejo
pela fenda no espaço,
pela fenda do desejo...

E. M. de Melo e Castro
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito

GLOBE-TROTTER

Isso até me agrada. Que me deitem fora
Que me deixem livre de compromissos afectivos.
Ficar ligeiro por dentro; ser como casca só.
Não tropeçar nos detritos humanos
Que me cercam,
Não ter altivez nenhuma nisso.
Ser simplesmente um andante.
Ter o caminho livre.

29-VII-1983

Raul de Carvalho
publicado por RAA às 19:37 | comentar | favorito

VIA LÁCTEA

Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Teres notado que outras coisas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço coisas tristes,
Qua mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive:
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.

Olavo Bilac
publicado por RAA às 17:09 | comentar | favorito

A NOITE E O HOMEM

Uma lembrança de eternidade
agora mesmo
cristalizada
em mim
rompe a espessa muralha
da noite
fria

Inchado de angústia
descrevo no espaço
um gesto
que voou

Com os pés na terra
não sei onde estou

António José Fernandes
publicado por RAA às 15:49 | comentar | favorito

...

Porque as mães sempre amaram tudo quanto
Chora de baixo, ou perde algum perdão,
Quer seja a flor, que sofre em qualquer canto,
Seja a raiz, às cegas pelo chão.

E mortas -- não lhes morre ao pé um pranto,
Que elas não sequem com a sua mão,
-- Mesmo quietinhas, inda afagam tanto,
Mesmo geladas, que calor não dão!

Basta que à tarde, pequenino e estreito,
Um fio d'água passe por seu peito,
Logo julgam, de novo, os peitos cheios;

De modo que não há por todo o solo,
Miséria, que não durma no seu colo,
Desgraça, que não mame no seu seio!

Nunes Claro
publicado por RAA às 14:40 | comentar | favorito

A MÃE ESTÁ SENTADA NO ALPENDRE

à minha mãe, advérbio de estar

A mãe está sentada no alpendre a ver os advérbios passar:
serenamente, completamente, em paz. Como se a paz fosse
um advérbio de modo de estar, um orgulho. A mãe está sentada
no alpendre olhando em frente o campo, o cemitério, a igreja,

o padre celebrando a missa, celebrando os mortos. A mãe vê
a serenidade completa da paz atravessar-lhe o corpo e deitar-se
sob o mármore, sob as lápides, sob as flores e o ar que as esvoaça.

A mãe vê os advérbios passar, levando-lhe a paz. E uma vez
mais o padre, na igreja, dizendo: Senhor, dai-nos a paz.

Jorge Reis-Sá
publicado por RAA às 12:34 | comentar | favorito
01
Set 10

O VIOLINISTA CEGO

Sob a leveza do arco,
Que o dia esconde ao olhar,
Naufraga à sombra de um barco,
Que nunca volta do mar.

Indiferente à pressa do cais,
A noite faz por esquecer
Que só o cão, ninguém mais,
Lhe dá os olhos p'ra ver.

Vergílio Alberto Vieira
publicado por RAA às 10:58 | comentar | favorito