07
Set 10

O DETRITO DAS ÁGUAS

Neste local,
o rio avoluma-se inesperadamente.
Alarga-se, alaga
terras que deram milho, casas onde
a fome se amontoou
e foram gerados filhos.

Sobre tudo isso o Douro deposita
o detrito das águas.

Cujo peso sujeita lá em baixo
baixios que perderam a validade.

A. M. Pires Cabral
publicado por RAA às 23:17 | comentar | favorito

PINHAIS, CHÃOS DE BIBLIOTECAS

1

Peço aos elementos que me tragam
os dias trágicos da infância,
o vento nos pinheiros, as insufladas nuvens
que deixavam no céu um gesto de loucura
que sabia bem apontar com o dedo mínimo.
Ergo a mão direita e abençoo o estilo baço
que a natureza traduz da voz de Deus.
Eu quero abençoar Deus e não me deixam.
Cada quadro rural é um mistério
quase litográfico.
Posso pensar nos animais de pasto
como outros trazem nos seus livros
uma versão romântica, fim de século.
Um cão de caça surge com a baba esbranquiçada
da moral submissa.
Deus teve os seus pastores no mês de junho
mas os furões chiavam no outono
e as matilhas humanas corriam no inverno
para vir ao meu encontro.
Pinhais e bibliotecas. Punhais de chuva
ou livros? Mentir até expulsar o corpo
das águas menstruais, gaseificadas.
Eu tive um tio que era espiritista
e lia Redol deitado no seu tabuleiro
de tuberculoso.
O mar do Baleal sabia-me a manteiga,
a pão e névoa.
Hoje, entre duas bicas, meu tio, reformado
dos plásticos, fala de política
e eu faço que sim com a cabeça.

Armando Silva Carvalho
publicado por RAA às 19:48 | comentar | favorito

...

Amar é desejar o sofrimento
e contentar-se só de ter sofrido
sem um suspiro vão, sem um gemido,
no mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
e deste mundo enfim tão esquecido,
é pôr o seu cuidar num só sentido
e todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
de rudes pescadores rodeado,
caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
é ser enfim vendido por dinheiro,
e entre ladrões morrer crucificado.

José Albano
publicado por RAA às 16:52 | comentar | favorito

...

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter de haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa
publicado por RAA às 15:31 | comentar | favorito

CONTESTAÇÃO

9

Eu só queria cantar
a terra ensaguentada mas sagrada,
corpo e alma
carne e sangue
do senhor;
tão real, tão igual e tão perfeitamente
como está neste céu
de sacrifício e dor,
como está neste céu
de martírio e de cor,
como está neste céu
de delírio e de amor.

Queria cantar o povo,
o deus crucificado em todos os momentos,
em todos os tormentos,
ressuscitado continuadamente
no santo sacrifício de ter força
e fé
nos corações.

Cochat Osório
publicado por RAA às 14:40 | comentar | favorito

...

Não sei de outra medida
de outra minúcia de outro olhar

Não sei de outra voz
reclinada na linguagem do ar
ou na cegueira de um astro

Não sei de outra escassez
ou sabor
sem a cal de um ombro. Não sei.

Fernando Jorge Fabião
publicado por RAA às 12:25 | comentar | favorito
07
Set 10

EUGÉNIO DE ANDRADE

O que de seu tem,
o que tem de mais belo
é grego ou toscano.

A mesma forma
infrangível
de receber as nuvens,
alegria
de estar na terra lavrada,
de tê-la entre mãos
friável,
de encontrar um corpo na noite.

O mesmo gosto de água soterrada,
a mesma paixão pela vida.

Obstinada.

10 de Dezembro de 1972

António Osório
publicado por RAA às 11:10 | comentar | favorito