10
Set 10

STAR DUST


(Lester Young
lendo Star Dust)

toda pele
quando ela toca
troca

arde
vira verde
trans-
parece

(Lester Young
lendo Star Dust)

nada nunca ninguém
quando ela toca ou fala
toca tão completamente
quando completa foi tocada

(Lester Young
lendo Star Dust)

Frederico Barbosa
publicado por RAA às 19:10 | comentar | favorito

BOA NOITE

A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama

-- teve de se deitar
porque estava de pijama.

Sidónio Muralha
publicado por RAA às 17:11 | comentar | favorito

BALADA DOS SONS VELADOS

Amo nos versos a surdina
os tons de opala oriental,
do luar das noites de neblina,
as morte-cores de um vitral.
Quero que o verso seja tal
que em cada som tintinabule
tornando a frase musical
como a canção do rei de Tule.

Mesmo na estrofe alexandrina,
ampla, sonora e triunfal,
sinta-se bem que predomina
o semitom de uma vogal.
Nunca, de modo desigual,
haja uma rima que estridule.
E seja o verso natural
como a canção do rei de Tule.

O verso é a concha nacarina
que a enorme voz do vendaval,
doce, subtil, longínqua e fina,
repete em ecos de cristal.
Embora negro e funeral,
rouco e bramante, o mar ulule,
cante essa concha de coral
como a canção do rei de Tule.

OFERTA

Ó cavaleiros de San Graal!
Que o verso seja um véu que ondule
e evoque a imagem ideal
como a canção do rei de Tule.

Martins Fontes
publicado por RAA às 15:50 | comentar | favorito

SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., -- unidos.
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... -- abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio
publicado por RAA às 14:28 | comentar | favorito

CHORO

Ai barco que me levasse
a um Rio que me engolisse
donde eu não mais regressasse
p'ra que mais ninguém me visse!

Ai barco que me levasse
sem vela ou remos, nem leme
p'ra dentro de todo o olvido
onde não se ama nem teme.

Ai barco que me levasse
aos tesouros conquistados
por entre esquinas de perigos
dos mil caminhos trilhados.

Ai -- onde? -- que me levasse
bem dentro de um vendaval...
Barco berço, barco esquife
onde tudo fosse igual:

Ai barco que me levasse
toda estendida em seu fundo!
Nesga de céu a bastar-me
toda a saudade do mundo!

Ermelinda Pereira Xavier
publicado por RAA às 12:30 | comentar | favorito
10
Set 10

...

Que assim sai a manhã, serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante;

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

João Xavier de Matos
publicado por RAA às 10:47 | comentar | favorito