12
Set 10

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Aquele cuja amizade era alegria
deixou-me somente a via da renúncia:
Era néctar e agora apenas um veneno.

Ibn 'Abd al-Barr

(Adalberto Alves)
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito

CANÇÃO

Ânfora, gomil
por que bebo fel e mel,
és tu,
amor meu;
e o filtro que adormeceu
num sonho d'ópio subtil,
desentranhado do núbil perfil
do teu corpo nu,
és inda tu,
amor meu!
O meu espelho de cristal,
emoldurado a marfim e prata
lavrada
por um artista gentil
como Cellini,
ficou quebrado,
ora vê lá tu,
ao reflectir a escarlata
dos teus lábios de rubi,
e a sombra maga do perfil alado
de graça do teu corpo esguio e nu,
e lindo!
Ora vê lá tu;
eu jamais tal vi,
e jamais vejo,
amor meu,
ânfora por que bebo
o mais amargo fel
do mais doce, do mais impossível desejo.

António de Navarro

publicado por RAA às 20:47 | comentar | favorito

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O vago, longínquo tom
mudou-se em vivo escarlate.
Mudou-se o acre limão
em bombom de chocolate.

(Que se riam, à vontade,
dos meus olhos sem canseira!
Quem estiver à minha beira
que pressinta o disparate...)

Aquele cinzento é ruivo
como um beijo que faz sangue...
E o silêncio fundo é um uivo...

E o gesto exangue e langue
dá cabriolas... O goivo
para mim é cor de sangue.

Saul Dias
publicado por RAA às 04:19 | comentar | favorito
12
Set 10

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Céu de espantosos gritos que ficaram nos ecos da memória
de procelosas mágoas com pudor de mostrar-se
Cargas maciças de bastões na noite contra cabeças e o resto
Raivosas chicotadas nos porões de naus a afundar-se
rasgando de alto a baixo o horizonte em clarões negros de vitória

Um homem só tem dois braços e a vida inteira lavra
a terra que não é dele e muitas vezes morre sem uma palavra
de protesto

Mário Dionísio
publicado por RAA às 02:41 | comentar | favorito