13
Set 10

COIN, 1994

Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
-- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
«dos escuros abismos do pecado»
-- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.

Manuel de Freitas
publicado por RAA às 23:48 | comentar | favorito

...

quando tudo é outra coisa
peixe ou nuvem
quando tudo é fulgor
rebentação do verde nos teus olhos
quando a alegria contamina a pele
e a casa é um navio transparente
e numa sílaba
ouso imaginar-te enternecendo as aves

é que levo ao poema
a brancura matinal da infância
ou, quem sabe
o nome exacto de Deus.

Fernando Jorge Fabião

publicado por RAA às 20:20 | comentar | favorito

CÃOZINHO

Eu tenho um cão
muito pequenino
que me cabe na mão
e não é ladino...
Só se põe a correr
se o seu menino
lhe mexer...

Não come carne nem peixe
mesmo que o deixe...
Nem trinca chocolates e bolos
como os cães tolos...
Nem come sopinha
por mais que lha dê...

E não bebe leite
antes que se deite
na sua caminha...
E que coma açorda
ninguém se recorda...
Nem papa farinha...

E sabem porquê?
Ninguém adivinha?

-- é que o patetinha
é um cão de corda.

Sidónio Muralha
publicado por RAA às 16:02 | comentar | favorito

...

Levanto-me e vou à janela.
Gotículas de água agarradas aos vidros.
Em baixo
sem o calor das folhas ou a alegria das flores
as árvores tiritam de frio.

As árvores, digo comigo?
Como as árvores?

Fico de repente espantado
com o facto de existirem árvores
mesmo que sejam árvores nuas
árvores pobres e municipais.
Nunca da sua existência me apercebera.
Nunca me dera conta que existissem.
Não fazia a mais pequena ideia que existissem árvores.
É espantoso saber que existem árvores
e mais espantoso ainda
que árvores aqui existam.
Aqui nestas traseiras
onde nunca nada houve.
E é espantoso que eu possa vê-las
como agora as estou a ver.

E ver que as vejo
deve ser ainda mais que tocá-las.
Vincam-se lívidas na névoa que clareia.

Erguem-se os braços nus e suados no ar.
Existem, Deus meu.
E com elas
passam a existir todos os quintais das traseiras.
E com os quintais
passam ainda a existir
os torreões brancos da Igreja de S. Vicente
e por detrás o Tejo.

Mas como o Tejo?
Como o Tejo
se nunca o vi em criança
que é a idade justa para haver Tejo?

E para cúmulo
ao fundo
tudo isto coroando em excelência
a linha solene e altiva
sem nada perder em doce
da Arrábida.

António Cândido Franco
publicado por RAA às 14:23 | comentar | favorito

HERANÇA

O meu avô escravo
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.

As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.

Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.

Meus sonhos
de asas desfeitas pelo sol da vida
deslocam-se como répteis sobre a areia quente
e enroscam-se raivosos
no cordame petrificado da fragata
das mil partidas frustradas.

Ah meu avô escravo
como tu
eu também estou encarcerado
neste navio fantasma
eternamente encalhado
entre mar e céu.

Como tu
também tenho a esmola do luar
e por amante
essa mulher de bruma, universal, fugaz,
que vai e vem
passeando à beira-mar
ou cavalgando sobre o dorso das borrascas
chamando, chamando sempre,
na voz do vento e das ondas.

Aguinaldo Fonseca
publicado por RAA às 12:27 | comentar | favorito
13
Set 10

SONETO GEOMÉTRICO

O risco de um soneto geométrico
a régua, rima, quadra, esquadro
um soneto no fundo bem patético
e doce, sem deixar de plástico.
Quero de Mondrian e de Petrarca
essa perfeita síntese dialética
num heróico polígono sintático.
Oh! a retórica das linhas retas!
Perdida entre metáfora e objeto
arde a língua sem ver comunicar
um tempo grave, esdrúxulo, etc.
Jayro José Xavier
publicado por RAA às 11:08 | comentar | favorito