15
Set 10

C.A.P.E.

Amo estas folhas todas dentro do dossier
Manuseio os telexes e as notas de débito
Como coisas minhas e familiares de mim
Sei que cada capa contém um mundo

As facturas ora explícitas ora pouco claras
São como pessoas e mentem muitas vezes
Tal como os certificados de origem
E mais grave ainda -- os conhecimentos de embarque

Por detrás de cada papel está uma pessoa
O maravilhoso é pensar nisso quando lhe pego
Amo profundamente estas capas cheias de papéis
E tudo o que elas representam todos os países

José do Carmo Francisco
publicado por RAA às 23:15 | comentar | favorito

MELODIA

II

Há anos de raiva
que te busco em vão,
Melodia!

No sopro dos meus versos,
nas fontes com sede,
nas portas que rangem,
na cólera do mar aberto...

Mas quem te ouve, Melodia,
para além do contorno do silêncio?

Pobre voz que trago em mim
e há-de morrer ignorada
nas trevas dum sol profundo
sem luas de superfície.

José Gomes Ferreira
publicado por RAA às 19:26 | comentar | favorito

...

o ramo seco partido/ em dois por meus pés refaz-se inteiro no estalido que ainda me acompanha.
António Gil
publicado por RAA às 17:23 | comentar | favorito

VELA DO EXÍLIO

Acendi hoje uma vela
de estearina na fina
mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
da chama para os meus olhos
velhas lembranças seguiam.
E súbito sobre a parede
da velha casa onde moro
o mapa árido e breve
das ilhas do Caboverde.

Que vento não vem ou se agita
no barco em forma de vela
por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
da ilha difusa difunde
meu nome em projecto?

Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
por sobre a mesa pessoas
vivas e mortas passavam.

Vela do exílio acendida
na noite de Moçambique:
pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
com apenas um sopro apagas
a vela, o exílio não.

Gabriel Mariano
publicado por RAA às 15:11 | comentar | favorito

ATESTADO DE ÓBITO

foi o ferro
certamente a lança
a lança em sua ponta ferro
enterrada logo abaixo coração

ou terá sido o conhaque
a cana o álcool
a soda cáustica

ou a literatura
Sade Lawrence Rimbaud
ou simples féerie:
um copo de pernod

ou terá sido a mulher:
a negra de recados
a moça propaganda
a tenra priminha

a gula
sim, a gula, terá sido a gula
o sapo o rato a avestruz
tudo misturado
adicionado ao pato assado
à melancia

ou foi o vento
a corrente de ar:
nu olhava-se ao espelho
ou um azar tremendo:
a queda do cavalo
a vontade de subir
o cadafalso
a maçã Lispector morta no escuro
o duro soalho onde foi parar sua cabeça

Vivaldi adicionando a éter
a derreter impressões sobre sua memória
ou a emoção pura e simples
do retrato dela encontrado ao lado do seu corpo

o morto expectante espera o laudo
sem o qual não pode considerar-se
nem alar-se a outras paragens
nem fazer visagens tão do seu agrado

: «edema pulmonar» --
e o poeta sai do seu cadáver pasmo
de tamanha vulgaridade

Pedro Garcia
publicado por RAA às 14:20 | comentar | favorito

ACALANTO DE JOHN TALBOT

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.

Manuel Bandeira
publicado por RAA às 11:50 | comentar | favorito
15
Set 10

CORAÇÃO SELVAGEM

Amores
por desbravar
eu tenho imensos

Como lagos
em fúria
nos luares

Em selvas
do coração
por descobrir

Sem raízes
que me prendam
aos lugares

5/2/98
Luís Graça
publicado por RAA às 10:41 | comentar | favorito