16
Set 10

MONTE CARLO

Para o tédio
Quero uma bica e um brandy normal
Para o remédio
Um copo de água natural
E também quero um jornal
Mas traga-me um desportivo
Que sempre é mais digestivo

Pedro Bandeira Freire
publicado por RAA às 22:54 | comentar | favorito

CÂNTICO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA

9.

Mas há a noite. O estar sozinho
e no entanto acompanhado -- servo de um deus estranho
cumprindo o ritual jamais completo.

Mas há o sono. A lúcida surpresa
de um mundo imaterial e necessário,
com praias onde o corpo se desprende.

Mas há o medo. Há sobretudo o medo.
Fel, rancor, desconhecido apelo,
suor nocturno, rápido suicídio.

Daniel Filipe
publicado por RAA às 19:30 | comentar | favorito

...

Há um destino antigo, sepulcral,
Entre as paredes que falam
E os animais que olham.
A minha história
É o que eu recuperar dessa memória.

José de Matos-Cruz
publicado por RAA às 17:43 | comentar | favorito

ROSAS

Que abundância de rosas! Todas elas,
Ao penugento arfar da viração,
Sob os mimos da luz, sorrindo estão,
Radiosas como bocas, como estrelas.

Tu que andas, fina e pálida, a colhê-las
Para alindar com pura devoção
Teu oratório, ansioso o coração,
As mais vivas escolhes, as mais belas.

Já encheste, afanosa, duas cestas,
Mas ainda quer's mais! E desbotadas,
Por entre as rosas mil, de essências brandas,

As tuas mãos, translúcidas e lestas
Lembram duas freirinhas maceradas,
Conduzindo ao recreio as educandas.

Eugénio de Castro
publicado por RAA às 15:58 | comentar | favorito

NO CÉU DA NOITE

No céu da noite que começa
Nuvens de um vago negro brando
Numa ramagem pouco espessa
Vão no ocidente tresmalhando.

Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como em sossego,
P'ra sono falta-me dormir.

Deixei atrás nas horas ralas
Caídas uma outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.

Fernando Pessoa
publicado por RAA às 14:36 | comentar | favorito

OS NAVEGADORES

Eles habitam entre um mastro e o vento.

Têm as mãos brancas de sal.
E os ombros vermelhos de sol.

Os espantados peixes se aproximam
Com olhos de gelatina.

O mar manda florir seus roseirais de espuma.

No oceano infinito
Estão detidos num barco
E o barco tem um destino
Que os astros altos indicam.

Sophia de Mello Breyner Andresen
publicado por RAA às 12:22 | comentar | favorito
16
Set 10

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Lá vem o acendedor de lampiões na rua!
Este mesmo que vem imperturbavelmente
parodiar o Sol e associar-se à Lua
quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões e continua
outros mais a acender interminavelmente
à medida que a noite aos poucos se acentua
e a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
ele que doura a noite e ilumina a cidade
talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua:
crenças, religião, amor, felicidade,
como esse acendedor de lampiões na rua!

Jorge de Lima
publicado por RAA às 11:03 | comentar | favorito