23
Set 10

REGRESSO

Regresso para mim
e de mim falo
e desdigo de mim
em reencontro

os pontos
um por um:

o sol
os braços

a boca
o sabor

ou os meus ombros

Trago para fora
o que é secreto
vantagem de saudade
o que é segredo

Retorno para mim
e em mim toda
desencontro já o meu regresso

Maria Teresa Horta
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito

A SEMANA SANTA

I

Tíbio o sol entre as nuvens do ocidente,
Já lá se inclina ao mar. Grave e solene
Vai a hora da tarde! O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que à voz da Primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o átrio
Pontiagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A Cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tiranos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Pátria
E a liberdade, e o combater por ela.
Eu não! -- eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os déspotas maldigo. Entendimento
Bronco, lançado em século fundido
Na servidão de gozo ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!

Alexandre Herculano
publicado por RAA às 20:05 | comentar | favorito

AQUELA TARDE

Disseram-me que ele morrera na véspera.
Fora preso, torturado. Morreu no Hospital do Exército.
O enterro seria naquela tarde.
(Um padre escolheu um lugar de tribuno.
Parecia que ia falar. Não falou.
A mãe e a irmã choravam.)

Francisco Alvim
publicado por RAA às 17:51 | comentar | favorito

CANÇÃO DE LEONORETA

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá,
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 16:58 | comentar | favorito

...

Ela vem
quando eu cerro as pálpebras pesadas
e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono
Vem muito branca muito lenta
Fita-me calada
e muito direita
começa desatando seus cabelos negros
Abre a boca num riso que eu não oiço
deixa cair o seu vestido todo
E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
seis homens pequeninos e muito encarquilhados
agarram suas seis tetas
e sugam-lhe os bicos
rosados e rijos de prazer

Ana Hatherly
publicado por RAA às 15:41 | comentar | favorito

KINAXIXI

Gostava de estar sentado
num banco do Kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...

Alguém viria
talvez
sentar-se ao meu lado

E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no quimbundo mestiço
das conversas

Veria os passos fatigados
dos servos dos pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além de uma embriaguês em cada álcool

Nem felicidade nem ódio

Depois do sol posto
acenderiam as luzes e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.

Agostinho Neto
publicado por RAA às 14:29 | comentar | favorito

...

Vem, ó ninfa gentil, que não merece
o meu antigo amor que assim te escondas.
Vem, doura as águas desse mar que sondas,
bem como o faz o sol, quando amanhece.

Se a conversação minha te aborrece,
já não digo, cruel, que me respondas;
mas sequer, lá de longe, sobre as ondas,
a meus saudosos olhos aparece.

Como se me afigura, ó ninfa amada,
que já o cristalino corpo erguendo,
vens sobre as crespas ondas levantada!

Mas só vem meu engano aparecendo:
era uma onda -- ergueu-se encapelada...
lá se vai entre as outras desfazendo...

João Xavier de Matos
publicado por RAA às 12:48 | comentar | favorito
23
Set 10

A TRISTEZA DE VIVER

Ânsia de amar! Oh, ânsia de viver!
Um'hora só que seja, mas vivida
E satisfeita... e pode-se morrer,
-- Porque se morre abençoando a vida!

Mas ess'hora suprema em que se vive
Quanto possa sonhar-se de ventura,
Oh, vida mentirosa, oh, vida impura,
Esperei-a, esperei-a e nunca a tive!

E quantos como eu a desejaram!
E quantos como eu nunca a tiveram
Uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
O desespero dos que não viveram
Esse sonho de amor incompreendido!

Manuel Laranjeira
publicado por RAA às 11:16 | comentar | favorito