29
Set 10

...

Eu poderia dar o passo
que o súbito ar
separa

e arder
no círculo imenso da água.

Eu poderia
dar à voz
o uso próprio de um verso,

partilhar o que me falta
no país difícil
de um adeus.

Fernando Jorge Fabião
publicado por RAA às 14:20 | comentar | favorito
29
Set 10

...

um relâmpago assombra
esta nudez

entra pelo sexo

calcina
as espirais da melancolia

e eu ardo (ardo!)
em lavaredas altas

resina indefesa

Fernando Assis Pacheco
publicado por RAA às 11:59 | comentar | favorito
28
Set 10

...

cosmos,
de que ignoto ponto teu me vem
este desejo permanente de reescrever
o mesmo e único poema,
que siderais geometrias se intersectam em mim,
que efémeras luminescências são estas
que atravessam o meu corpo, e de novo me deixam, cosmos,
frio em frente ao silêncio do teu hálito

Vítor Oliveira Jorge
publicado por RAA às 23:45 | comentar | favorito

Livro de Versos

autor: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa, Lisboa, 1888-1935)
título: Livro de Versos
edição: Teresa Rita Lopes (introdução, transcrição, organização e notas)
edição: 2.ª (1.ª, 1993)
local: Lisboa
editora: Referência / Editorial Estampa
ano: 1994
capa: José Antunes, sobre desenho de Almada Negreiros e foto de Pessoa
n.º de págs.: 436
dimensões: 23,6x16,5x3,4 cm. (cartonado)
composição: Maria Esther-Gabinete de Fotocomposição
impressão: Lello &; Irmão
observações: edição crítica
publicado por RAA às 19:36 | comentar | favorito

PRELÚDIO

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem houve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...

Lisboa, 1951

Alda Lara
publicado por RAA às 18:59 | comentar | favorito

...

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Marquesa de Alorna
publicado por RAA às 17:21 | comentar | favorito

FÁBULA

que não sabia, noite, o cerne das palavras
rumo ao tempo, dia, quando o que fomos
era um campo resistindo, noite, ao avanço
da luz pelo ombro do dia, perguntaste, noite,
Porque é que não pode ser sempre assim,
um dia, uma noite, e haver alguma verdade
nisto, Como por exemplo o quê, perguntei-te,
Como por exemplo nós, respondeu alguém,
mas então a noite já se misturava com o dia
e o universo amanhecia num leve tom diferente

Rui Costa
publicado por RAA às 12:05 | comentar | favorito
28
Set 10

BÉTULA

Serás a humílima árvore.
A árvore a tinta
da china desenhada.
A árvore de papel.
Serás a bétula
abstracta e concisa.
A bétula do Nepal.
A que não existe
senão na linguagem.
Serás a que sonha os dias,
as noites, as lembranças.
A que protege
da ira inclemente.
A que protege
do sopro do tempo.
A da sombra feliz.

Luís Quintais
publicado por RAA às 10:50 | comentar | favorito
27
Set 10

...

Penso na catedral de Évora,
nas muralhas dos arredores de longe,
no forte filipino de Paimogo.
Trago suas verdades no meu corpo.

Reconheço o próprio caminho
destas coisas, seus antigos
autores voltam para deus
um novo rosto.

Os poetas
talvez saibam o local das
suas pedras, porque

é da palavra errante que
devemos falar, da distância
das coisas ou da cor do mar.

João Miguel Fernandes Jorge
publicado por RAA às 23:45 | comentar | favorito
27
Set 10

OUTRORA

Outrora, num tempo distante,
fui eu tão feliz, não agora:
mas quanta doçura no instante
por tanta doçura de outrora!

Esse ano! por anos que após
fugiram e que fugirão,
não podes, ideia, não podes
levá-lo contigo, na mão...

Um dia ele foi... só uma essência
sem retorno e sem outro igual.
E a vida foi vã aparência
antes e após um dia tal.

Um instante... ai tão passageiro,
que menos passou que se diz;
mas tão belo assim, mas tão belo,
e eu nele tão feliz, tão feliz!

Giovanni Pascoli

(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 21:19 | comentar | favorito