02
Out 10

NOTAS PARA A REGULAMENTAÇÃO DO DISCURSO PRÓPRIO

1.

Cabe num punho ou num bolso, este cabedal
ciosamente amealhado, mas puído já por usos
e abusos, irremediavelmente contaminado
pelas perversões da ignomínia ou da ignorância,
vez por outra remido, também, na lâmina

célere do mais acerado metal. Se, para brandi-lo,
ergo vacilante a mão, mais de cem fantasmas
antiquíssimos me cavalgam o pulso sobre
que inflecte a fragilidade calcificada
de séculos. Um movimento vai exauri-lo

sob o fardo, já outro lhe põe em risco
a quebradiça ligeireza. O verbo hesitar
lhe empresta o tónus correcto, no silêncio
respira, a sombra lhe dá corpo. Oferece,
por tal, essa aparência ilusória de ser

só chama, comburência sem combustível.
Podes tu, que apenas chegas e tudo ignoras
das traiçoeiras dificuldades experimentadas
nos lameiros que atolam o percurso
antes da pirâmide, proferir a primeira

palavra, como quem percute em festa
o cristal novo do sino alvissareiro.
Meu fendido, escuro bronze, roído
de musgos e cardenilho, apenas consente
a mágoa nocturna deste lamento a prumo.

Rui Knopfli
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02
Out 10

ATHENE PARTHENON

Poeta de hoje vivo ainda a Atenas
das tradições homéricas, -- da lenda...
A minha fantasia -- tece-a a renda
feita de espuma das criações helenas.

Evoco as linhas nobres e serenas
de Bríleis junto a Aquiles -- numa tenda.
Não há breve dizer que eu não entenda
em suas gráceis, pastoris avenas.

Atleta como um grego -- sonho lutas.
Há na minha arte jónicas volutas,
-- acantos lanceolados como insídias...

E modelando as formas dum soneto
no mármore do Sonho predilecto,
a minha pena -- é um cinzel de Fídias!

Coimbra
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Tomás de Figueiredo
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