06
Out 10

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Estava Lereno enleado com seus cuidados junto duma fonte, quando «ouviu grande alvoroço e festa das serranas, que vinham buscar água à fonte e traziam no meio um vaqueiro ancião com ua rabeca, a cujo som elas em gracioso baile cantavam o seguinte:

Olhos graciosos
de tão boa estreia
não nos há na vila
como nesta aldeia.

Vale mais o desdém
da humilde serrana,
que a vista que engana,
olhos que não vêem.
Não cuide ninguém
que há por esta serra
coração sem guerra
nem serrana feia;
não nas há na vila
como nesta aldeia.

Se os cabelos solta
Lianor ao vento,
com seu movimento,
a touca revolta;
faz ao sol dar a volta
com desejo e gosto,
inda que do rosto
seus raios receia;
não nos há na vila
como nesta aldeia.

A seda custosa
fará mais louçã,
mas não faz a lã
ser menos formosa;
como a bela rosa,
tem preço dobrado
quando, no cerrado,
de espinhos se arreia;
tais são as serranas
desta nossa aldeia.

Chegaram ao pé da fonte com esta alegria e saudaram ao Peregrino que, com inveja daquela liberdade, as estava olhando...»

Francisco Rodrigues Lobo
publicado por RAA às 23:01 | comentar | favorito

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As casas celebraram um pacto com a cal
e com o brilho limpo do sol.
Tudo em redor cheira a mirto,
a eucalipto e alfazema. Entardecem
estes dias na embriaguez
que só o tempo, esquivo e fugidio,
é capaz de pôr no álcool das noites.
Que idade temos nestes meses
em que não é permitido ter idade?
O corpo retoma a euforia enganadora
de dar-se e de esbanjar-se
e nós esquecemos que até no sono
se envelhece, como as aves,
as ervas e os ondulantes deuses da água.

José Jorge Letria
publicado por RAA às 19:21 | comentar | favorito

A ARANHA

Num ângulo do tecto, ágil e astuta, a aranha,
Sobre invisível tear tecendo a ténue teia,
Arma o artístico ardil em que as moscas apanha
E, insidiosa e subtil, os insectos enleia.

Faz do fluido que flui das entranhas a estranha
E fina trama ideal de seda que a rodeia,
E, alargando o aranhol, os elos emaranha
Do alvo disco nupcial, que a luz do sol prateia.

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha
O arabesco fatal, onde os palpos apoia
E, tenaz, a caçar os insectos se empenha.

Vive, mata e produz, nessa faina enfadonha:
E, o fascinante olhar a arder como jóia,
Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.

Da Costa e Silva
publicado por RAA às 17:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito

VEM

Já somos nada
quando a morte nos persegue.
Esperamo-la, implacável,
com o anúncio dos primeiros sinais.
publicado por RAA às 15:29 | comentar | favorito

SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta
publicado por RAA às 14:21 | comentar | favorito

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Pelo souto de Crexente
ua pastor vi andar,
muit'alongada de gente,
alçando voz a cantar,
apertando-se na saia
quando saía la raia
do sol nas ribas do Sar.

E as aves que voavan,
quando saía l'alvor,
todas d'amores cantavan
pelos ramos d'arredor;
mais non sei tal qu'i'stevesse
que en al cuidar podesse
senon todo en amor.

Ali 'stivi eu mui quedo,
quis falar e non ousei,
empero dix' a gran medo:
-- Mha senhor, falar-vos-ei
un pouco, se mh' ascuitardes,
e ir-me' ei, quando mandardes,
mais aqui non [e]starei.

-- Senhor, por Sancta Maria,
non estedes mais aqui,
mais ide-vos vossa via,
faredes mesura i,
ca os que aqui chegaren,
pois que vos aqui acharen,
ben diran que mais ouv' i.

João Airas de Santiago
publicado por RAA às 12:31 | comentar | favorito
06
Out 10

GRILOS EM QUINTA-FEIRA

Grilos ao longo de mil sons cinzentos.
Mas: grilos sempre e só.
Acima de mil sons: este, o dos grilos.
E a percepção assim se forma,
inteira. Ou, se assim o quisermos,
uma cadeira ao longo dos tijolos,
tantos tijolos. Mas são eles que fundem
o olho de aqui estar. Ou o luar
que se abandona inteiro por tantos
mil pigmentos de cantar. Porque
acima de todos (lua, cadeira,
ou até o olhar que se revê
em doce mascarada), são os grilos
que inventam: a noite um carnaval.
E a quinta-feira de mil cinzas:
nada.

Ana Luísa Amaral
publicado por RAA às 11:01 | comentar | favorito