12
Out 10

POETA

Poeta: uma criança em face do papel.
Poema: os jogos inocentes,
invenções de menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.

Adolfo Casais Monteiro
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito

DESAPARECIMENTO

Tudo caminha para o desaparecimento:
o homem que no seu tempo de vida
padece da árdua pergunta do corpo;
os indefesos animais devorados
em clausura pela sombra;
as nuvens no vórtice insano do vento;
a luz arrebatada à sombra e para ela
voltando no final;
o amor diante do rio do esquecimento.

Apenas o que carece de forma,
por de todas ser o molde,
é fonte de onde mana o conhecimento
misterioso do mundo:
em horas difíceis o que amamos
nele procura instantes de trégua,
refúgio de tenebrosa tempestade.

A esse, mais desconhecido do que a morte,
me dirijo, na inútil liturgia do poema,
para que te possa ungir as feridas do corpo
e te proteja na última morada da alma.

Jorge Gomes Miranda
publicado por RAA às 20:35 | comentar | favorito

...

Quisera vosco falar de grado,
ai meu amigu' e meu namorado;
mais non ous' oj' eu con vosc' a falar,
ca ei mui gran medo do irado;
irad' aja Deus quen me lhi foi dar.

En cuidados de mil guisas travo
por vos dizer o con que m'agravo;
mais non ous' oj' eu con vosc' a falar,
ca ei mui gran medo do mal-bravo;
mal-brav' aja Deus quen me lhi foi dar.

Gran pesar ei, amigo, sofrudo,
por vos dizer meu mal ascondudo;
mais non ous' oj' eu con vosc' a falar,
ca ei mui gran medo do sanhudo;
sanhud' aja Deus quen me lhi foi dar.

Senhor do meu coraçon, cativo
sodes en eu viver con quen vivo;
mais non' ouso oj' eu con vosc' a falar,
ca ei mui gran medo do esquivo;
esquiv' aja Deus quen me lhi foi dar.

D. Dinis
publicado por RAA às 18:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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EUGÉNIO

Trouxe para as névoas da cidade
o ouro dos trigais, a brancura
da cal que os mouros deixaram
por herança, como a nora
que sempre deu água ao seu moinho.
Percorreu as ilhas da história para
britar a pedra, esmiuçar os alicerces,
começando a amar as maresias,
a areia suave, as luzes das arribas,
e quando o coração se lhe partia
escrevia um poema onde o sol
entrava pelos ossos, dourava a saudade
e punha as aves negras a voarem
para longe, estrelas do desgosto
que as nuvens arrastavam para fora
do horizonte. As cintilações
de Setembro reverdecem
o que a memória decantou, o mar
a que a errância da memória
sempre volta. Folhas secas
aparentes, que formam um tornado
luminoso que bate à sua porta.
E a porta abre-se... o mar está ali.

1999

Egito Gonçalves
publicado por RAA às 17:20 | comentar | favorito
12
Out 10

AS ETERNAS MARGENS

                                                                                                                                                                                          À Margarida Losa

Um cedro te pensava.
Nunca faia,
ou sobretudo junco de ternura.
Mas de cedro: sempre sementes foram
a dar seiva aos amigos
e ao mundo.

Um cedro te pensava. Feito de força
e vento
-- ou vendaval.
Nunca faia de espanto
ou junco horizontal
onde horizonte: nada.

Um cedro. Uma pequena ponte alada,
força feita de tanto
e luz de solidez, onde a seiva
se faz de frente ao mundo,
a ela se ligando
a tua imagem.

Um cedro te pensava.
Se faia fores também,
ou frágil junco,
igual o coração.
E a sua eterna margem.

Ana Luísa Amaral
publicado por RAA às 10:45 | comentar | favorito