14
Out 10

A UMA MULHER

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sôbre o
[teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que fôste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente fôste a serenidade.

Vinicius de Moraes
publicado por RAA às 22:48 | comentar | favorito

SONETO DITADO NA AGONIA

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torna sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo. A língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:

-- «Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!»

Bocage
publicado por RAA às 18:03 | comentar | favorito

...

Ouve!
Suspende timidamente a âncora perdida:
Debruça-te ao de leve na trémula paisagem,
E depois suspira.

Ouve!
Efémeros são os sorrisos do orvalho:
As formas veladas espreitam, fugitivas,
O fluido das estrelas.

Ouve!
Prendeu-se o coração de alguém enamorado,
Lamentam as árvores nuas o herói adormecido,
E o instante pára.

Mas tu não ouves...
Só tu sobrevives e rasgas no abismo
Os véus castos do sonho!

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 16:37 | comentar | favorito

BICHO-GENTE

Numa lamela de sol
uma larva de fome
na fome da hora
uma hora de bicho

(homem ou larva
bicho ou gente?)

Na fome da hora
uma larva estremece
na hora de bicho
um verme apodrece.

Arménio Vieira
publicado por RAA às 15:31 | comentar | favorito

sonata urbana

a flauta mesmo em silêncio
fabrica seu mel de fábula
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga

modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto

ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto

José Falcón
publicado por RAA às 14:22 | comentar | favorito

PASSOS DE VELUDO (título póstumo)

                                                                                                                                                                                                 Do not go gently into that good night
                                                                                                                                                                                                                                    Dylan Thomas

Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso à almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.

Ana Luísa Amaral
publicado por RAA às 12:25 | comentar | favorito
14
Out 10

a viagem

as pálpebras eram incolores. vinham anónimas.
transfiguradas em cada árvore. em cada ramo.
procurando a humanidade em tons de inverno.
porque era nesses tons que nós vivíamos. incrédula e
intemporal era a viagem. os apeadeiros eram curtos e
sem-cerimónia. pelas janelas ainda víamos as cerejeiras
que renasciam pelo natal. ou seriam as amendoeiras
que brotavam. amenas, deliciosas. com o nevoeiro os
olhos ficavam indecisos. talvez sombrios. nós agora
vemos apenas o que sentimos. e como é bom ainda
sentirmos neste inverno meu amor.

Joaquim Manuel Pinto Serra
publicado por RAA às 10:53 | comentar | favorito