15
Out 10

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

David Mourão-Ferreira
publicado por RAA às 22:53 | comentar | favorito

Poesia da Noite


título: Poesia da Noite
antologiador: Urbano Tavares Rodrigues (Lisboa, 6.XII.1923)
apresentação: «Acerca da noite e dos seus aspectos na poesia portuguesa» (U.T.R.)
poetas antologiados: Luís de Camões, Bocage, Antero de Quental, Almeida Garrett, Gomes Leal, António Nobre, Eugénio de Castro, Cesário Verde, Teixeira de Pascoais, José Duro, Florbela Espanca, Afonso Duarte, António Patrício, Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, José Régio.
edição: UCB - Divisão Farmacêutica /Neo-Farmacêutica, Lda.
local: Bruxelas
ano: 1970
capa: Henrique Ruivo
págs.: 64
dimensões: 18,8x13x0,7 cm. (brochado)
impressão: Cromotipo, Lisboa
obs.: editado pela farmacêutica belga, por ocasião da apresentação em Portugal do produto Isonox
publicado por RAA às 19:35 | comentar | favorito

JÁ NÃO É FÁCIL, EUGÉNIO, UM POEMA

Outrora várias vezes versos esperei
onde ficava fechada a amizade e vinham
num jogo de acalmia os instrumentos
de desenhar esse grão de penumbra. Enquanto
a casa e o corpo me protegiam.

Hoje tenho esta certeza de dizer-lhe
que nem a poesia é uma casa,
nem faz senão expor-nos ao banal
num corpo já entregue a bisturis,
apenas o espera cada cinza.

A claridade a que tento escrever-lhe
é tumefacta como um órgão ferido,
está sujeita numa cortina suja
e é à salgação da morte
que na janela adormecem os contornos.

Passámos na vida pelas nossas vidas
e, sabe que é raro, tudo esteve certo.
Agora é esperar o canto enfermo,
o banimento,
nem um abraço ficará
de nenhum de nada de nós.

Talvez nessa altura fogos presos
nos acendam em barcos as palavras,
estrondos surdos de luz cruzem a água
diante da qual por algum tempo
a mão de alguém fará lembrar
esses focos da noite, esquivos,
impossíveis de tocar.

E nessas brasas de tanta cor
outros escutam o desaparecimento.

Joaquim Manuel Magalhães
publicado por RAA às 16:58 | comentar | favorito

A DOR DAS PEDRAS

Ó pedras a sofrer, em ânsias, nas calçadas,
Ninguém vos sabe amar, ninguém de vós tem dó,
Ninguém sabe entender, ó pedras desgraçadas,
Que há lágrimas também dentro do vosso pó!

Passam, por sobre vós, tanta dor e alegria,
Olhos em que há prazer, olhos em que há tormento,
E ninguém vos consola e queima-vos o dia
E, quase sempre a rir, insulta-vos o vento!

E ninguém sabe ver que pode o infinito
Duma dor existir numa pedra do chão;
Que pode acontecer que um palmo de granito
Sofra, por vezes, mais que um grande coração.

E vós continuais sofrendo a vossa cruz,
E eu vejo-vos lançar um clarão para os Céus,
Como um grande protesto: ó pedras, essa luz
O que é que vai dizer ao ouvido de Deus?

Eu sei que vós falais a Deus dessa maneira:
Vossa palavra é luz, só Deus pode entendê-la:
Há dentro em vós, talvez, uma via-láctea inteira,
Porque, em sentindo dor, sai de vós uma estrela...

Ó pedras, esperai, que talvez um vulcão
Vos lance para o Céu, num abalo violento,
E lá pode falar o vosso coração
E alguém compreender o vosso sofrimento!

João Lúcio
publicado por RAA às 15:37 | comentar | favorito

A ÚNICA ROSA

Todas as rosas são a mesma rosa,
Amor, a única rosa.
E tudo está contido nela,
Breve imagem do mundo,
Amor! a única rosa.

Juan Ramón Jiménez

(Manuel Bandeira)
publicado por RAA às 14:15 | comentar | favorito

NOITE

Noite profunda e negra
Céu sem estrelas nem lua
Mar imenso bramando longe
Gritos de gente esperando em vão
Barco pesqueiro perdido além
Ondas furiosas que o não trarão mais

Mas nem todas as noites hão-de ser
Negras e profundas
Nem sempre o mar rugirá de raiva
Esmagará furioso
Os homens temerários
Que se atrevem a sondar-lhe o seu infinito Mistério

Hão-de vir noites suaves e amenas
Noites de céu com estrelas
E luar brilhante
Em que o mar há-de ser sereno e azul
De um azul de calma e mansidão
Aberto e franco a receber os homens temerários

Em que os homens
Hão-de poder enfim descansar sobre as ondas calmas
Em que os homens hão-de poder cantar
E em que hão-de poder viver
A plenitude da Vida
De olhar ridente e corações ao alto
Num amor alegre
Em quietude e Paz
Para sempre e eternamente

Eduardo Teófilo
publicado por RAA às 12:33 | comentar | favorito
15
Out 10

O MEU LÁPIS

É impossível pintar
a canção do vento
ou o choro das árvores
quando são abatidas.
É possível, diz o meu lápis
habituado a tantas vidas.

Teresa Guedes
publicado por RAA às 11:00 | comentar | favorito