24
Out 10

A SOMBRA (tradução de um poema de uma língua desconhecida)

     Foi ali que um dia sentiu desejos de partir também. Que ficava fazendo sozinha? Quem leva uma lança, leva a mulher também.

     O seu xale negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem do mesmo dia.

     Os anos correram sem novas algumas, e as moças finaram-se velhas, velhas de tanto esperar.

     E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de trágica sonâmbula vai seguindo, como um braço murcho de cipreste a boiar ao de cima da corrente que o vai levando -- mansamente.

Almada Negreiros
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito

POUSIO

Faz-me bem deixar
os poemas na secretária
por uns meses,
só família e corpo
e relatórios, projectos,
notas para a imprensa.

O ar do tempo revigora.
A linguagem faz-se rogada
e agarra-se aos objectos,
retira-lhe adjectivos.

O tempo vai transformando
os versos em mais coisas
que não reconheço,
meses depois, quando me sento
à secretária e volto a escrever
o poema de sempre.

José Ricardo Nunes
publicado por RAA às 20:04 | comentar | favorito

COMEÇO POR INVOCAR WALT WHITMAN

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Nixon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.

Pablo Neruda



(Alexandre O'Neill)
publicado por RAA às 17:30 | comentar | favorito
24
Out 10

A CONCHA

A minha casa é concha. Como os bichos,
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos;
O horto e os muros -- só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera -- oh bronze falso! --
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio
publicado por RAA às 15:33 | comentar | favorito