03
Out 10
03
Out 10

...

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil frontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos que não me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

William Shakespeare

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 15:58 | comentar | favorito
02
Out 10

NOTAS PARA A REGULAMENTAÇÃO DO DISCURSO PRÓPRIO

1.

Cabe num punho ou num bolso, este cabedal
ciosamente amealhado, mas puído já por usos
e abusos, irremediavelmente contaminado
pelas perversões da ignomínia ou da ignorância,
vez por outra remido, também, na lâmina

célere do mais acerado metal. Se, para brandi-lo,
ergo vacilante a mão, mais de cem fantasmas
antiquíssimos me cavalgam o pulso sobre
que inflecte a fragilidade calcificada
de séculos. Um movimento vai exauri-lo

sob o fardo, já outro lhe põe em risco
a quebradiça ligeireza. O verbo hesitar
lhe empresta o tónus correcto, no silêncio
respira, a sombra lhe dá corpo. Oferece,
por tal, essa aparência ilusória de ser

só chama, comburência sem combustível.
Podes tu, que apenas chegas e tudo ignoras
das traiçoeiras dificuldades experimentadas
nos lameiros que atolam o percurso
antes da pirâmide, proferir a primeira

palavra, como quem percute em festa
o cristal novo do sino alvissareiro.
Meu fendido, escuro bronze, roído
de musgos e cardenilho, apenas consente
a mágoa nocturna deste lamento a prumo.

Rui Knopfli
publicado por RAA às 23:08 | comentar | favorito
02
Out 10

ATHENE PARTHENON

Poeta de hoje vivo ainda a Atenas
das tradições homéricas, -- da lenda...
A minha fantasia -- tece-a a renda
feita de espuma das criações helenas.

Evoco as linhas nobres e serenas
de Bríleis junto a Aquiles -- numa tenda.
Não há breve dizer que eu não entenda
em suas gráceis, pastoris avenas.

Atleta como um grego -- sonho lutas.
Há na minha arte jónicas volutas,
-- acantos lanceolados como insídias...

E modelando as formas dum soneto
no mármore do Sonho predilecto,
a minha pena -- é um cinzel de Fídias!

Coimbra
1 9 2 3

Tomás de Figueiredo
publicado por RAA às 18:50 | comentar | favorito
01
Out 10

O Menino e as Estrelas

título: O Menino e as Estrelas
autor: Leonel Neves (Faro, 1921)
colecção: «Pássaro Livre» #14
editora: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano: 1979
capa e ilustrações: Tòssan
págs.: 29
dimensões: 22,9x15,5x0,4 cm (brochado)
impressão: Altagráfica, Mafra
publicado por RAA às 19:00 | comentar | favorito

SINOS AO LONGE

Chegam de longe
Vindas na aragem,
Imagens débeis
De bronzes finos...
E, cristalinas,
Pousam na aragem,
Na aragem vaga,
Flébeis e finas,
Como essas penas
No ar, serenas,
Que o ar afaga
Só de ampará-las
E suspendê-las.
Expiram longe,
Ida na aragem,
Imagens débeis
De bronzes finos,
De coisas flébeis...

Afonso Lopes Vieira
publicado por RAA às 15:57 | comentar | favorito

...

Como vive essa rosa que prendeste
junto ao teu coração?
Nunca até hoje contemplei no mundo
uma flor sobre um vulcão.

Gustavo Adolfo Becquer

(José Bento)
publicado por RAA às 14:17 | comentar | favorito

VOYAGEUR AU-DESSUS DE LA MER DE NUAGES

                                                                                                                                                                                                                          ao António S. Oliveira

Na solidão da mesma noite
e do mesmo monte
onde vasos
da luz ainda há pouco se entornavam.

Com a palma da mão
cobrindo os olhos, na retina
o fluxo de antigos silêncios,
a ciência do poente perdida
na terra firme do quarto

onde há-de caber sempre
o rosto de uma figura romântica
cismando sobre um mar de nuvens.

Rui Lage
publicado por RAA às 12:26 | comentar | favorito
01
Out 10

OBRA-PRIMA

Quando a tua mão acaricia a minha perna
os sensores da pele desencadeiam reacções sentimentais
e às vezes chego a ter uma reacção motora. O ângulo
da perna, a inclinação do pé -- maravilhas-te com a paisagem
ocasional: depois da curva da estrada estabilizas o olhar
na curva do joelho. Os olhos impacientam-se em sacudidelas
invisíveis mas o espelho reflecte apenas imobilidade.
A sandália: o teu olhar vai do joelho à nudez do pé. Este pé
que calcorreia as ruas é também objecto de desejo: o pé
que calca o travão a fundo. Sei que vais beijar-me -- talvez
nem tu saibas que a postura do teu corpo tem o formato
de beijo. A carícia necessita de um controlo minucioso,
da pressão exacta para que não me esmagues a rótula.
O contacto é doce na pele que te ofereço, a carícia
é a obra-prima da engenharia mecânica. Olho a baía
onde se reflectem os néons da noite e deixo o corpo
trabalhar à vontade. Depois adormeço com a tua mão
na minha perna e a vaga consciência de que o paraíso
se estende da ponta dos pés até ao cimo da cabeça.

Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 11:28 | comentar | favorito