04
Nov 10

OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusivé cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço     no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis porque todos temos a perder e porque é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina 
publicado por RAA às 23:15 | comentar | favorito

IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO

I

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minh'alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
és para mim como um sonho --
Soas-me na alma distante...

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa
publicado por RAA às 19:10 | comentar | favorito

NOITINHA

A noite sobre nós se debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É a água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora,
A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...

Florbela Espanca
publicado por RAA às 14:39 | comentar | favorito

ELEGIA DE SETEMBRO

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se recordam os mortos, sem os ferir
sem os trazer a esta espuma negra
onde os corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada olhando as rosas
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade 
publicado por RAA às 11:51 | comentar | favorito
04
Nov 10

...

A palavra, a mãe que me espera
ao fim desta viagem de cegos
é uma árvore compassiva a que me encosto
quando estou cansado e não quero cair ainda.
Um bosque cheio de veredas
e não sei se foi esse o melhor caminho.
Aceitei-o. Precisava de uma companheira mais leve
do que o cheiro a tulipa negra da morte.
Navego num chão labirinto e vou com as águas
que todas as coisas são; adapto-me
ao vaso delas, à concha de palavras
que não colhi ainda. Foi bom termos tido
uma vida quase esquecida. Encostados a sílabas
como se fossem árvores de família.
As palavras não acrescentam nada,
mas como dizer o que não pode ser dito
em silêncio? Talvez possamos ajudar a desarrumar
a casa pobre que somos; talvez sejamos apenas
um espelho melancólico
onde se reflectem os nossos irmãos.

Para o António Ramos Rosa.

Casimiro de Brito
publicado por RAA às 10:57 | comentar | favorito