09
Nov 10

COMO SE FOSSES...

Em discursos e conferências
em relatórios e ensaios
serves de objecto de estudos
como se fosses uma cobaia

Entre um grogue e um violão
entre um baile e uma catchupa
todos te prometem felicidades
como se fosses uma noiva

Nos bancos das universidades
nas reuniões e assembleias
todos te prometem brinquedos
como se fosses uma criança

Pelos bares de Rotterdam
pelas ruas de New Bedford
todos te choram com saudades
como se fosses um defunto

Com lamentos e com poemas
com mornas e com guisas
sempre faminto e miserável
como se fosses um mártir

Com estudos e com música
com discursos e com promessas
com o andar destes anos todos
como se fosses uma esperança

Uma noiva uma criança
como se fosses uma cobaia
Um defunto uma esperança
como se fosses Cabo Verde.

Armando Lima Júnior
publicado por RAA às 16:05 | comentar | favorito

CÍRCULO

e surge teu dorso dourado
e vem com a aurora teu rosto
e agora e ainda uma vez e outra mais
aqui estamos
no fragor de lençóis amarfanhados

nus
abandonados
aqui estamos

lentas mordidas
e o relógio tique-
taqueando o tempo

nus
abandonados
aqui estamos

lentas mordidas
e o amor truque-
truncando o tédio
e o corpo assassinado
e surge teu dorso dourado
e vem com a aurora teu rosto
e agora e ainda uma vez

Ronaldo Werneck
publicado por RAA às 15:10 | comentar | favorito

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:
-- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
-- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira
publicado por RAA às 14:23 | comentar | favorito

...

Senhor, eu vivo coitada
vida, des quando vos non vi;
mais, pois vós queredes assi,
por Deus, senhor ben talhada,
     querede-vos de min doer
     ou ar leixade-m' ir morrer.

Vós sodes tan poderosa
de min que meu mal e meu ben
en vós é todo; [e] por en,
por Deus, mha senhor fremosa,
     querede-vos de min doer
     ou ar leixade-m' ir morrer.

Eu vivo por vós tal vida
que nunca estes olhos meus
dormen, mha senhor; e, por Deus,
que vos fez de ben comprida,
     querede-vos de min doer
     ou ar leixade-m' ir morrer.

Ca, senhor, todo m' é prazer
quanti i vós quiserdes fazer.

D. Dinis
publicado por RAA às 11:46 | comentar | favorito
tags:
09
Nov 10

PORTO, CIDADE VELHA

Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa de janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.

Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literatura dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,

enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul
até se desfazerem
contra os muros
sombrios das casas.

Wolfgang Bächler

(João Barrento)
publicado por RAA às 01:23 | comentar | favorito