15
Nov 10

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (4)

A bilha de barro berra
Nesta paisagem parada,
Agudos gritos de guerra:
Que assombram na suave serra
A verdura repousada.

Cantando passa e não pensa,
Dolente, a moça que a leva;
-- Mas breve a sombra se adensa
E lhe dilui a presença
Torva, na tinta da treva.

Carlos Queirós
publicado por RAA às 23:49 | comentar | favorito

É INÚTIL CHORAR

É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

António Cardoso
publicado por RAA às 18:35 | comentar | favorito

A MORTE DE SÓROR MARIANA

Calai que ela morreu. Nos seus vestidos
Bordaram-lhe Alma. As mãos sobre o Outono.
Como ela vai quietinha no seu sono!
Inda vai a rezar com os sentidos.

As suas mãos, madrinhas de tristezas,
Cansadas de Silêncio e de escrever.
E Deus põe-se a chorar a ouvir-lhe as rezas,
Pois sente-se pagão p'ra as receber.

A sua Ausência é um fechar de portas.
Em seus dedos prendeu as horas mortas
E encobriu a Saudade em velhos véus...

Colchas no meu lembrá-la penduraram.
E de tão brancas mãos a rodearam
Que a sua morte aconteceu em Deus.

Alfredo Guisado 
publicado por RAA às 16:20 | comentar | favorito

DIÁRIO

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

Ana Salomé
publicado por RAA às 14:12 | comentar | favorito

SINAL

Quanto amor me tens,
com amor to pago.
-- Trago-te no dedo,
num anel que trago.

Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o meu destino.

Este anel me basta
pra bater-te à porta.
Truz! truz! truz! na rua
como o frio corta!

Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.

(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
pra que o frio me passe;

Já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo Esposa,
peito contra peito.

Como tudo é simples,
como é tudo imenso!
Ó mistério enorme,
de um anel suspenso!

E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.

Sebastião da Gama
publicado por RAA às 12:28 | comentar | favorito
15
Nov 10

ENDOSSO

O Santo a que eu não chego -- sê-o tu,
irmão! com rezas ou sem elas.
O que importa é alguém chegar
ao nó da vida, limpo e nu.
E a luz tem muitas janelas
para entrar.

António de Sousa
publicado por RAA às 11:03 | comentar | favorito