16
Nov 10

DESAPARECIDO

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

Carlos Queirós
publicado por RAA às 23:19 | comentar | favorito

CAFÉ

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão da casa, com lenha do mato da casa,
Café para as visitas de cerimónia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda a gente

Ribeiro Couto
publicado por RAA às 17:32 | comentar | favorito

...

Que soidade de mha senhor ei,
quando me nembra d'ela qual a vi
e que me nembra que ben a oí
falar, e, por quanto ben dela sei,
     rogu' eu a Deus, que end' á o poder
     que mha leixe, se lhi prouguer, veer

Cedo, ca, pero mi nunca fez ben,
se a non vir, non me posso guardar
d'enssandecer ou morrer con pesar,
e, por que ela tod' en poder ten,
     rogu' eu a Deus, que end' á o poder
     que mha leixe, se lhi prouguer, veer

Cedo, ca tal a fez Nostro Senhor:
de quantas outras [e] no mundo son
non lhi fez par, a la minha fé, non,
e, poi-la fez das melhores melhor,
     rogu' eu a Deus, que end' á o poder
     que mha leixe, se lhi prouguer, veer

Cedo, ca tal a quis [o] Deus fazer
que, se a non vir, non posso viver.

D. Dinis
publicado por RAA às 16:22 | comentar | favorito
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Da Ilha que Somos

título: Da Ilha que Somos
coordenação e prefácio: A. J. Vieira de Freitas
poetas antologiados: António Duarte Camacho de Brito Figueirôa, Ana Paula Rosa Soares, António Quintela Proença, Carlos Alberto de Sousa Fernandes, Fátima Dionísio, Fernando Mota, José Laurindo Leal de Goes, João Luís de Ornelas Teixeira, Luís Rodrigues (Mirapda), Rui Honorato C. Gomes
local: Funchal
edição: Câmara Municipal do Funchal -- Actividades Culturais
ano: 1977
capa: Tolentino Nóbrega
págs.: 95
dimensões: 18,2x12,5x0,9 cm. (brochado)
impressão: Tipografia Minerva
obs.: dedicatória de um dos autores
publicado por RAA às 15:26 | comentar | favorito

MANHÃ

Perde-se o silêncio no ruído da manhã.

Desperto.

Deitado de costas na cama
olhando a luz de sombras no quarto
penso que o silêncio não existe
e se existisse
não haveria nada
nem sequer o acordar.

Armando Taborda
publicado por RAA às 14:35 | comentar | favorito

A VOZ DO SILÊNCIO

Silenciosa,
A noite calma,
Ó quantas coisas
Me diz à alma!

Cessai, ó fontes
A ladainha;
Deixai a noite
Falar sozinha.

Quanto mistério,
Quanto segredo,
No ar perpassa
Como que a medo...

Ó voz da Noite,
Que comoção!
Como o teu, bate
Meu coração.

E a treva funda,
A treva densa
Tem um martírio
De mágoa imensa.

Treva da vida,
Quem não sofreu?
Ó céu azul
Que escureceu...

Por isso ecoa
Dentro em minh'alma
A voz silente
Da noite calma.

Armando Cortes-Rodrigues
publicado por RAA às 12:51 | comentar | favorito
16
Nov 10

O CÃO E O CACHORRO

I

Não galgo, olho azul,
fidalgo.
Mas um simples cachorro.
Já seco.

Não cão
de uma constelação.

Mas um simples cachorro
de beco.

Não um cão do rei
Artur.

Mas um simples cachorro
tout court.

Já reduzido a um osso,
de magro.

Osso comendo um osso:

O osso que ele é,
por fome;

e o osso que ele come.

Cassiano Ricardo
publicado por RAA às 11:22 | comentar | ver comentários (4) | favorito