19
Nov 10

...

Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a streita vida! Quanto
       Infortúnio mesquinho
       Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
       Na morte como em casa;
       Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que se ergue
       Braços que se desfazem
       A um céu inexistente.
publicado por RAA às 23:53 | comentar | favorito

Última Colheita

autor: Francisco Costa (Sintra, 1900-1989)
título: Última Colheita
subtítulo: Poesia e Biografia
edição: do Autor
local: Sintra
ano: 1987
capa: gravura de William Burnett
págs.: 111
dimensões: 26,5x20x0,7 cm. (brochado)
impressão: omisso
obs.: «Esboço de Autobiografia Literária», pp. 66-111
publicado por RAA às 18:30 | comentar | favorito

GRAFITO

para um livro de Pedro da Silveira

No mar do coração levas a ilha
feita de negra terra e longo vento
feita de sonho e tédio como o tempo
feita de espuma e pedra como a vida

Joaquim-Francisco Coelho
publicado por RAA às 17:25 | comentar | favorito

PRECE

A máscara ri ou chora,
O ser olha, e impassível,
Deixa cair sobre tudo
Um olhar que diz:
Não importa.

Olhos de aflição
Querem fingir um sorriso,
Calar ao menos a mágoa
Não aflijam alguém...
O ser olha, e só murmura:
Não importa.

A quem, amigo, me abraça,
A quem, inimigo, me fere,
O ser distante contempla:
Não importa!

Senhor!
Dai ao meu ser interesse,
Por grandes, pequenas misérias,
Da minha vida real!
Dai-lhe o ódio, amor, piedade,
Crueza, ternura -- vida!
Não deixeis que eu assim viva,
Tendo em mim um indiferente
De tudo sempre distante!

Adolfo Casais Monteiro 
publicado por RAA às 16:06 | comentar | favorito

ILHA

No azul líquido é somente
um ponto anónimo da carta.
Ó minha fala inconsequente!
Saudade morna do ausente,
distante ainda que não parta!

O horizonte é linha de água
por estrelas-peixe enodoada.
Se me recorto em bruma e mágoa,
à solidão da ilha trago-a
dentro de mim petrificada.

Daniel Filipe 
publicado por RAA às 14:17 | comentar | favorito
19
Nov 10

PESSOAL INTRANSFERÍVEL

     Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
     Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, para quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimónias, «herdeiro» da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
     E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

Torquato Neto
publicado por RAA às 12:41 | comentar | favorito