24
Nov 10

INTRÓITO

Das tuas mãos de vidro, carregadas
De jóias tilintantes e doentes,
Das palavras que trazes afogadas,
Das coisas que não dizes mas entendes.

Do teu olhar virado às madrugadas
De fantásticos e exóticos orientes,
Do teu andar de tule, das estocadas
Dos gestos que não fazes mas sentes.

Dos teus dedos sinistros, de tão brancos,
Dos teus cabelos lisos, de tão brandos,
Dos teus lábios azuis, de tanta cor,

É que me vem a fúria de bater-te,
É que me vem a raiva de morder-te,
Meu amor! Meu amor! Meu amor!

José Carlos Ary dos Santos
publicado por RAA às 22:59 | comentar | favorito

...

Amo-te porque os teus lábios dizem: ama-me.
Beijo-te porque a tua boca suplica que te beije.
Trago-te no sangue,
nas lágrimas,
nos noivados das albas,
nos véus de tule dos crepúsculos.
Continuaria a amar-te
mesmo que as ausências não fossem (como são)
o calendário solar das memórias que me cabem.
As memórias e o jeito de interrogá-las.
Pergunto quanto ousaria se estivesses presente:
a harmonia dos gemidos,
a insurreição dos rios,
o incêndio das palavras.
Toco o meu corpo e converso com as tuas mãos.
Decifro um a um (serenamente) enternecidamente
os insubornáveis caracteres do desejo.
«Ama-me como se hoje fosse o primeiro
ou o último dia do mundo», dizes.
E eu deito-me sobre a tua pele
e cavalgo contigo até ao cansaço final.

Hugo Santos
publicado por RAA às 17:29 | comentar | favorito
24
Nov 10

EXPERIÊNCIA

Nas noites negras para roubos, chuvas, ventos,
E nas noites quentes em que o luar abafava as estrelas,
À hora de os sonhos baixarem vagarosos do céu,
Alguém dobrava com uma ordem doce os meus joelhos,
Juntava as minhas mãos inocentes e fracas,
E eu rezava como se repetisse uma canção.
E o meu sono era sempre sob a guarda de estrelas...

É a vida, agora, quem dobra os meus joelhos cansados
Que guardam a marca das pedras mais rugosas,
É a angústia da vida quem junta as minhas mãos,
As minhas mãos mais fracas e incertas.
Soltam-se da minha alma orações desesperadas,
Orações que as tristezas e os dias compõem.
Se no céu há estrelas, estão lá em cima e só brilham...

Alberto de Serpa
publicado por RAA às 15:21 | comentar | favorito