26
Nov 10

Eros de Passagem

título: Eros de Passagem
subtítulo: Poesia Erótica Contemporânea
antologiador: Eugénio de Andrade
autores: Camilo Pessanha, António Patrício, Afonso Duarte, Fernando Pessoa, Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, António Botto, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt, José Régio, Vitorino Nemésio, José Gomes Ferreira, Pedro Homem de Melo, Miguel Torga, Carlos Queirós, Adolfo Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Raul de Carvalho, Carlos de Oliveira, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Alberto de Lacerda, Fernando Echevarría, Ana Hatherly, Herberto Helder, José Bento, António Osório, Pedro Tamen, Fernando Assis Pacheco, Maria Teresa Horta, Armando Silva Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Gastão Cruz, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães.
desenhos: José Rodrigues
colecção: «Os Olhos e a Memória» #20
direcção literária: Egito Gonçalves
direcção gráfica: Armando Alves
edição: Limiar
local: omisso
ano: 1982
págs.: 72
dimensões: 20,5x12,5x0,6 cm. (brochado)
impressão: COOPAG, Porto
ob.: nas badanas, textos de Nuno Teixeira Neves e Joaquim Manuel Magalhães; foto de Eugénio de Andrade na contracapa, autor não-identificado
publicado por RAA às 21:59 | comentar | favorito

RUA ADAMCZEWSKI

Na distante memória, a estreita Rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.

Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim da tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.

Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,
como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?

David Teles Pereira
publicado por RAA às 17:46 | comentar | favorito

...

Quando o amor morrer dentro de ti
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 15:29 | comentar | favorito

...

Roland Kirk dixit: 'piano é um instrumento racista
tem mais teclas brancas do que pretas'
Roland tocava sopros, claro
todos ao mesmo tempo

José Duarte
publicado por RAA às 14:30 | comentar | favorito

HÁ UMA GOTA DE SANGUE NO CARTÃO-POSTAL

eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
                                                 lívido
de medo e de amor

Antônio Carlos de Brito
publicado por RAA às 12:50 | comentar | favorito
26
Nov 10

CANÇÃO

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as veias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles
publicado por RAA às 11:42 | comentar | favorito