29
Nov 10
29
Nov 10

MAR INCERTO

Que triste o som acorda à minha voz!
Como é pálida a luz do meu espelho
E a desse rio azul que não tem foz:
O tempo, em que me vou fazendo velho...

Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria -- esse cântico vermelho
Do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?

Arfa, cansado, no meu peito um mar:
O mar remoto da remota Ilha
Onde as sereias cantam ao luar...

À esteira dos navios, as gaivotas
Gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
Sem ecos de vitórias ou derrotas.

António de Sousa
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28
Nov 10

...

No silêncio das tapeçarias
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

Áfricas 69

Artur do Cruzeiro Seixas
publicado por RAA às 23:27 | comentar | favorito
28
Nov 10

ALEGRIA DE VIVER

Quando eu era menina,
Já minha mãe me dizia:
-- Mesmo que sejas velhinha,
Não percas essa alegria!

Com as agruras da vida,
Não há que desanimar,
A vida é melhor vivida
Se for levada a cantar.

No rosto duma criança,
Na flor a desabrochar,
Nós vimos sempre a esperança
Que nos ajuda a lutar.

Toda a minha poesia
É feita com simplicidade
Não tem hipocrisia
Tem apenas amizade.

Agradeço ao Senhor
Os dons que me concedeu.
Não tenho grande valor
Mas o pensamento é meu.

                         8-10-1987


Isolina Alves Santos
publicado por RAA às 17:36 | comentar | favorito
27
Nov 10

THE SNOWMAN

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
On the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Wich is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

Wallace Stevens
publicado por RAA às 23:54 | comentar | favorito

SALÃO DE BELEZA (2ª Impressão)

Dorida visão esta pobre velha
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.

José Miguel Silva
publicado por RAA às 21:58 | comentar | favorito
27
Nov 10

DÍSTICO

O viver que grita muito não diz nada.
A morte ao dizer tudo é bem calada.

8/7/38


Jorge de Sena
publicado por RAA às 16:40 | comentar | favorito
26
Nov 10

Eros de Passagem

título: Eros de Passagem
subtítulo: Poesia Erótica Contemporânea
antologiador: Eugénio de Andrade
autores: Camilo Pessanha, António Patrício, Afonso Duarte, Fernando Pessoa, Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, António Botto, António de Sousa, Edmundo de Bettencourt, José Régio, Vitorino Nemésio, José Gomes Ferreira, Pedro Homem de Melo, Miguel Torga, Carlos Queirós, Adolfo Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Raul de Carvalho, Carlos de Oliveira, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Alberto de Lacerda, Fernando Echevarría, Ana Hatherly, Herberto Helder, José Bento, António Osório, Pedro Tamen, Fernando Assis Pacheco, Maria Teresa Horta, Armando Silva Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Gastão Cruz, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães.
desenhos: José Rodrigues
colecção: «Os Olhos e a Memória» #20
direcção literária: Egito Gonçalves
direcção gráfica: Armando Alves
edição: Limiar
local: omisso
ano: 1982
págs.: 72
dimensões: 20,5x12,5x0,6 cm. (brochado)
impressão: COOPAG, Porto
ob.: nas badanas, textos de Nuno Teixeira Neves e Joaquim Manuel Magalhães; foto de Eugénio de Andrade na contracapa, autor não-identificado
publicado por RAA às 21:59 | comentar | favorito

RUA ADAMCZEWSKI

Na distante memória, a estreita Rua Adamczewski
contorna o olhar até se abrir em direcção ao cemitério
que fica no cimo da colina, onde as crianças brincam
aos castelos numa árvore sem pássaros.

Aqui a sombra da morte é tão presente quanto a do fim da tarde;
felizmente ainda mal passámos do meio-dia e os velhos
bebem aguardente de ervas no café à espera de quase tudo,
menos do grito de uma flor que aguarda um destino.

Mas eis que ele soa e o nosso tempo altera-se,
como se de ouvido encostado ao chão pudéssemos
associar o triunfo das formigas ao dos nossos antepassados
a caminhar lado a lado pela Rua Adamczewski acima
em direcção ao cemitério, de braços dados, enquanto cantam
Se não são os mortos que nos guardam,
porque é que os deitamos aqui em cima?

David Teles Pereira
publicado por RAA às 17:46 | comentar | favorito

...

Quando o amor morrer dentro de ti
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti
publicado por RAA às 15:29 | comentar | favorito
26
Nov 10

...

Roland Kirk dixit: 'piano é um instrumento racista
tem mais teclas brancas do que pretas'
Roland tocava sopros, claro
todos ao mesmo tempo

José Duarte
publicado por RAA às 14:30 | comentar | favorito