21
Dez 10

PALAVRAS

Sentas-te ainda à mesa -- escreves
palavras tão compactas, tão opacas
como a luz que te cega. Cada dia
promete o infinito em meia dúzia
de palavras -- o amor,
a vida, o tempo, a morte, a esperança,
o coração. Repete-as,
repete-as muitas vezes em voz alta
e escuta a sua música
até não quererem dizer nada.

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 23:57 | comentar | favorito

OS MEUS AMIGOS

Amigos cento e dez e talvez mais,
Eu já contei! vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer,
Se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e nove impávidos marotos.

Camilo Castelo Branco
publicado por RAA às 18:04 | comentar | ver comentários (3) | favorito

...

     Ergue-se a ave e às vezes
é quase árvore:
luz, fixa,

     suspensa

     do teu olhar, do vento,
dos vultos que num adejo vela,
desvela de repente;

     vê moverem-se
ávidos do seu voo
o chão, casas, o bosque
onde o seu ninho a chama,

     e uma face
que vai de corpo em corpo;

     vê o pântano que sob asas
é rio fugitivo,
sulco de sua fuga imóvel.

José Bento
publicado por RAA às 17:11 | comentar | favorito

AULA

a luz da lua prateia a planta
um bocejo dentuço engole a noite

Charles
publicado por RAA às 15:58 | comentar | favorito

...

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio que, deitado
Onde co o vento a água se meneia.
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

-- Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe ao vento a voz, que ao vento deita.

Camões
publicado por RAA às 14:46 | comentar | favorito
21
Dez 10

...

Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo ainda fiquei olhando

A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,

Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então

Sumir-se em meio àquele sobressalto
Depois de muito sacudida no alto
E de muito arrastada pelo chão...

Dante Milano
publicado por RAA às 11:15 | comentar | favorito