02
Dez 10

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga
publicado por RAA às 14:25 | comentar | favorito

OCORRÊNCIA

decidiu interromper sua ideia de ser o Duque de Wellington,
flutuando no ar. a perícia descobriu que em seus bolsos
somente havia cartas de amor, apesar das várias cicatrizes no
abdome e algumas manchas no corpo,
lembrando ligeiramente o mapa da Índia.

Adão Ventura
publicado por RAA às 12:41 | comentar | favorito
02
Dez 10

CANTO DE MAIO

Já vem Maio florir sobre as campinas!...
Cantam, de amor, mil vozes cristalinas...
      Por que hei-de sofrer de amor?

O mundo reverdece de alegria;
O sangue, em nós, é sonho e melodia...
      Por que hei-de sofrer de amor?

Sob este céu, em que a alegria exulta,
Por que há, em mim, uma ansiedade oculta?
      Por que hei-de sofrer de amor?

O mundo é seiva ardente e fervorosa...
Por que persiste, em mim, a força ansiosa?
      Por que hei-de sofrer de amor?

É passageira a luz da primavera...
E o sonho da minha alma, esta quimera,
      Por que hei-de sofrer de amor

É ter no mundo o amor que nunca passa.
É para dar aos céus a humana graça,
      Que eu hei-de sofrer de amor.

João de Castro Osório
publicado por RAA às 11:02 | comentar | favorito
01
Dez 10

...

Nasci naquela terra distante
num dia de batuque.

daí esta pressa de viver!

Ombros balançando
lábios sangrando de prazer
eles dançavam
dançavam...

Daí este olhar pró sofrer!

Depois o descanso.
Olhos longe sem se saber porquê

Assim esta vontade de viver!

Francisco José Tenreiro
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito

...

Para guardar meu rebanho
cão e flauta pouco mais
num mundo deste tamanho
só coisas essenciais.

José Correia Tavares
publicado por RAA às 22:13 | comentar | favorito
01
Dez 10

MADAME BUTTERFLY, VELHA

Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.

Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.

E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.

Pedro Tamen
publicado por RAA às 15:52 | comentar | favorito