27
Dez 10

MEDITAÇÃO 6.

Naum 2.4. Tinge-se de rubro o escudo dos seus valentes, seus guerreiros vestem-se de escarlate; o aço dos carros preparados parece fogo, e os cavalos empinam-se. O mercador e os sonhos

Mais correcto seria dizer pesadelos.
Todavia, ao despertar de madrugada,
outros ruídos emergem distantes: as
pancadas ritmadas de um velho relógio

de sala, o restolhar de pássaros numa
água-furtada, a sirene de uma
ambulância, ou um cão ladrando muito,
muito longe, ou vento agitando os

plátanos, ou vozes de crianças... ainda
vozes de crianças. Um insecto imenso
baila no cortinado em fusão com o

fumo, uma breve encenação da luz.
O fumo anula o revérbero mas
aquelas vozes soam mais perto do sangue.

Mário Avelar
publicado por RAA às 18:27 | comentar | favorito
27
Dez 10

RE--

Re--
começo a caminhar em atitude
predestinada como convém a quem
sabe que não sabe nada e ilude
a ignorância com poemas

António Barahona
publicado por RAA às 16:08 | comentar | favorito
26
Dez 10

FOZ DO ARELHO OU PRIMEIRO POEMA DO PESCADOR

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rastro
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pelas orquestras e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
«pedrinhas conchas pedacinhos d'osso»
e nada mais.

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjunções astrais
um pequeno lugar do mundo
onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.

Foz do Arelho, 8.8.96

Manuel Alegre
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26
Dez 10

AVISOS

Teria amado o vento e a fala dos bosques,
as imagens da noite, os pequenos avisos
do coração. Iria regressar
por outros olhos às cores do inverno.

Fernando Pinto do Amaral
publicado por RAA às 18:34 | comentar | favorito
25
Dez 10
25
Dez 10

QUALQUER MÚSICA

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música -- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não a vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa
publicado por RAA às 23:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
24
Dez 10

Um Ramo de Rosas

título: Um Ramo de Rosas
subtítulo: Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira
antologiador: José da Cruz Santos (1936)
autores: Alfredo Margarido, A. C. Swinburne, Afonso Duarte, Afonso Lopes Vieira, Alberto Osório de Castro, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Angelus Silesius, António Fogaça, Antonio Machado, António de Sousa, Camilo Pessanha, Christina Rossetti, Eugénio de Andrade, Eugénio de Castro, Fausto Guedes Teixeira, Federico García Lorca, Florbela Espanca, Friedrich Gottlieb Klopstock, Gustavo Adolfo Becquer, Hölderlin, J. W. Goethe, José Bento, José Saramago, Juan Ramón Jiménez, Nuno Júdice, Omar Khayam, Paul Celan, Pedro Juan Vignale, Ricardo Reis (Fernando Pessoa), Rainer Maria Rilke, Robert Burns, Robert Louis Stevenson, Ronsard, Ruy Cinatti, Safo, Sebastião da Gama, Shakespeare, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vasco Graça Moura, W. B. Yeats
colecção: «Bilbioteca de Poesia JCS»
edição: Modo de Ler
local: Porto
ano: 2010
págs.: 56
dimensões: 23x13,9x0,5 cm. (brochado)
impressão: Rainho & Neves, Santa Maria da Feira
direcção gráfica: Armando Alves
obs.: pintura de Evelyn de Morgan em extratexto
publicado por RAA às 22:01 | comentar | favorito

DESAMPARO

Não posso olhar de frente as torres deste castelo
habitado pelas trevas.
Quando os lobos uivam e aberta já está a lua,
as flores amargas dos teus olhos
desfazem-se aos meus pés.
E o pó, as cinzas, os restos de tudo o que
respirava,
amontoam-se à beira deste mar.

José Agostinho Baptista
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24
Dez 10

PROMENADE -- LUGAR CHEIO DE INSCRIÇÕES (PAUL KLEE)

Às vezes sento-me na
sala a ouvir Coltrane,
pursuance... as melodias

agitam o teu olhar,
afagam bem lá no fundo
as águas azuis tépidas

da lagoa. Nesse instante,
a natureza parece
ocultar uma ausência

de piedade, parece
dizer: é tão simples, tão
natural. Deixa fluir,

como o sangue, ou como
um corpo sensual, vivo,
quente... que, indiferente,

segue por entre a tribo
e, ainda quente, nela
se dissolve. Haja Deus!

Mário Avelar
publicado por RAA às 17:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
23
Dez 10

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 22:46 | comentar | favorito
23
Dez 10

CANÇÃO SEGUNDA

Canto de pé no meio do país amado.
Os ventos tristes batem no meu rosto
batem no meu poema as vozes muito antigas
de não sei que desgosto sempre tão cantado
nas cantigas nocturnas do país amado.

Eu cantarei os homens assentados
nas cadeiras de chuva sobre a dor.
Dos nervos do meu canto lançarei mil dardos
eu cantarei o amor e os ombros libertados
de seus fardos. Que eu vi na dor os homens assentados.

Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo.
Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me
cantar meu povo onde meu povo não cantar.
Eu quebrarei qualquer açaime e do luar farei um facho
para encher de luar os homens que se queixam baixo.

Canto de pé no meio do país amado.
Outros falem de si tecendo a frágil dor
deitados no poema entre cortinas e almofadas.
Eu cantarei o amor que sempre foi negado
às gentes ignoradas do país amado.

Manuel Alegre
publicado por RAA às 17:26 | comentar | favorito