04
Jan 11

MONÓLOGO DA OLIVEIRA

Sobrevivo com uma pinga de água.
Um olhar de quem passa dá e sobra

muitos meses, um sorriso me basta
para reverdecer por longos anos

-- a minha copa foi feita de sonho
e de coisas exactas e tão negras

como pequeno bago de azeitona.
Sinais minúsculos e trespassados

de luz na cerração densa da morte.
Vi romanos, e moiros, e judeus:

o par de mansos olhos do Cordeiro
no meu tronco perdura até ao fim.

José António Almeida
publicado por RAA às 18:05 | comentar | favorito

MONK IS GONE

And now, Thelonious?

Um nome nas discografias nacionais
Uma referência em programas radiofónicos e televisivos regulares

Uma nota snob em discoteca de curiosos
Um espontâneo esquecimento
Daqueles que nunca te amaram

Mas
Sempre no cerne da memória
Mesmo daqueles que se exasperavam com o teu TEMPO

E na daqueles
Que com sofreguidão não simulada
Sorviam o licor agridoce
Que espargias com a polpa dos teus dedos

João Henrique de Oliveira Barros
publicado por RAA às 17:06 | comentar | favorito

PÓLIS II

a mão rápida do pivete agarrou a bolsa da velha
a velha teve um troço & caiu babando na rua
rápido o pivete atravessou a Avenida Rio Branco
duas horas depois o rabecão veio buscar a velha
o sol brilhava insistentemente sobre a metrópolis...

Adauto de Souza Santos
publicado por RAA às 15:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito

...

Pode lá ser! Há três dias
que me abrasa esta paixão!
E vai durar outros tantos,
sendo a maré de feição...

Bem pode o Tempo voar
que não descobre um amante,
na redondeza da terra,
tão afincado e constante!

E nem mereço louvor:
como a ideia me arrepela!...
Pois onde iam já meus olhos
se outra fora que não ela?

Se outra fora que não ela,
com seu palminho de rosto,
já doze dúzias -- nem menos! --
tinham tomado o seu posto...

John Suckling

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 14:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
04
Jan 11

...

Nunca evitei o desafio
Na frente de quem seja campeão
Mas hoje só tenho por contrário
A beleza que me mata com requebros
Com beijos doces e abraços,
Que são a sua saudação,
E cadeias
Que me apertam como laços.
Minha vida é dada às armas
E a couraça eu só tiro
Com o peito a palpitar
Se a beleza oculta em véus
Eu pressinto em seu arfar.

Ibn Darraj al-Qastalli

(Adalberto Alves)
publicado por RAA às 11:01 | comentar | favorito