28
Jan 11
28
Jan 11

POEMA

As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem,
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

António Ramos Rosa
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27
Jan 11

ACENTUAÇÃO GRAVE

governo         permanente
povo             doente
coragem        ausente
ditadura         vigente
castração*     evidente
nação*           indolente

*agudo

Liberto Cruz
publicado por RAA às 23:56 | comentar | favorito

POESIA E ORIGEM

O pólen de ouro que arde no recesso
das corolas, no segredo dos pistilos;
a visão musical de outros tranqüilos
céus onde o amor esteve (ou está) disperso;

a secreta palpitação de uma beleza
mais casta, de uma luz que se anuncia,
trazem-me a sensação do próprio dia,
numa contemplação que é mais certeza.

Certeza? antes, o supremo encantamento
de quem renasce com as manhãs, em luminosa
plenitude, e as vê morrer, frágeis, ao vento.

A poesia é o dia reinventado.
E nós, que tanto sonhamos ao criá-la,
não nos lembramos mais de haver sonhado.

Alphonsus de Guimaraens Filho
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HEIDENRÖSLEIN

Viu um rapaz uma rosa
-- rosinha do silvado...
Era tão fresca e formosa
que de vê-la assim airosa
quedou logo enamorado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Diz ele: Vou apanhar-te,
-- rosinha do silvado!
E vai ela: Hei-de picar-te!
Ficas de mim a lembrar-te!
que desprezei teu cuidado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Logo o cruel a colheu,
-- rosinha do silvado!
Ela bem se defendeu,
mas de nada lhe valeu:
já era aquele o seu fado!...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Goethe

(Luís Cardim)
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27
Jan 11

...

Non chegou, madr', o meu amigo,
e oj' est' o prazo saído!
          Ai, madre, moiro d'amor!

Non chegou, madr', o meu amado,
e oj' est' o prazo passado!
          Ai, madre, moiro d'amor!

E oj' est' o prazo saído!
Por que mentiu o desmentido?
           Ai, madre, moiro d'amor!

E oj' est' o prazo passado!
Por que mentiu o prejurado?
          Ai, madre, moiro d'amor!

Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu a seu grado.
          Ai, madre, moiro d'amor!

D. Dinis
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26
Jan 11

HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

Mário Cesariny
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito

SECOTINE

Tu eras a graça, a vida,
o golpe brusco de afecto,
elegância desmedida,
o súbito e dilecto
gesto de felino airoso.
Eras a velocidade
encarnada, o gostoso
ir à nossa intimidade,
sem pedir, sequer, licença:
como se tudo que há no mundo
fosse teu -- tua presença
      vinha em nós até ao fundo.
              Tu eras a graça, a vida,
              elegância desmedida.

Eugénio Lisboa
publicado por RAA às 19:46 | comentar | favorito

...

Cruzei-me com quem me dava
A languidez do amor.
A saudação lhe dei pela palavra.
Porque a afeição se acabasse
Não sentia o seu calor
E altaneiro me evitava,
Mas deixou-me que o beijasse:
Foi como daquela vez
Que avistando a claridade,
Só querendo lume, Moisés
Falou com a divindade.

Ibn Al-Milh

(Adalberto Alves)
publicado por RAA às 17:40 | comentar | favorito

NAVIO ERRANTE

Navio errante,
atraquei ao cais do Amor.

Daí em diante
fui-me ao sabor
de ondas, pária
de incerto rumo, bússola perdida.

Onde a linha imaginária
do verde equador
da minha vida?

Navio errante,
sem leme nem comandante,
meu sonho é corcel sem rédea
a gravitar na linha média
entre o equador
e o cais do Amor!

Maria Eugénia Lima
publicado por RAA às 14:15 | comentar | favorito
26
Jan 11

DÍPTICO IRAQUIANO

1. Saddam Hussein em conferência íntima

Diz as maiores barbaridades diante duma audiência restrita e
                                                                       [escolhida.
Fingem que sorvem as suas palavras, como se de ensinamentos
                                                           [do Profeta se tratasse
(ou sorvem-nas realmente, para decifrarem o mistério que reside
                                                                     [em cada tirano).
Saddam perora, sentencia, pára de falar por segundos que parecem
                                                                     [eternidades.
Como que alheio à tragédia que ele próprio é.
                                                                                                                                                                                                         I-2003
2. Embarque

(os marines rumam ao Golfo Pérsico
 vejo, na elevisão, um rapazinho
 de sete ou oito anos, agarrado ao pai)

Vai, despede-te do pai.
Vai matar ou morrer no
deserto.
As lágrimas embaciam-te
os óculos, e não percebes,
meu pequeno, porque há
homens maus a afastá-lo
de ti.
America will prevail.
Oh yes. Democracy,
como sempre.
Ainda não o sabes, mas
já o perdeste, pequeno.
Mesmo de volta,
virá com a morte
nos olhos. A morte
dos que têm o teu
tamanho, pequeno.
2-VI-2003
publicado por RAA às 11:35 | comentar | favorito