03
Fev 11

CORO

2

Quem não quer morrer não sabe
que a Morte é mais preferida:
-- vive-se à custa da Morte...
-- morre-se à custa da Vida...

Edmundo de Bettencourt
publicado por RAA às 23:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito

CERNE

Nada a ver com a fonte
mas com a sede

Nada a ver com o repasto
mas com a fome

Nada a ver com o plantio
mas com a semente

Olga Savary
publicado por RAA às 16:56 | comentar | favorito

SONETO

Na branda luz do frio, gravo a ternura
De andar sofrendo, pela vez primeira,
O amor que, por engano, a vida inteira
Transforma numa lenta desventura.

Se no ar desta manhã sopra tão pura
A obrigação de respirar-me, à beira
De uma esperança enferma e derradeira,
Vou respirando a flor de uma armadura

Imposta pelo amor. Sobre a incerteza
Do noivo abandonado, sobre a firmeza
De prosseguir lutando, e ardentemente

Este poder desperta o ardor de um canto
No cárcere de vidro onde, inclemente,
O amor confina o amor, como num pranto.

Marcos Konder Reis
publicado por RAA às 14:18 | comentar | favorito
03
Fev 11

CANTIGA DE MANA ZEFA

     Ainda me lembro dela
          matrona forte desengonçada
tinha sempre uma oração nos olhos
          uma canção nos lábios grossos

          dorme menino dorme
     oh! oh! oh! oh! oh!
          cazumbi não está a vir
     mana Zefa tá lh'olhar

          tinha ciúme do menino
     de quem mana Zefa falava com paixão
          um dia perguntei com ansiedade
     se o menino seria assim como eu

mana Zefa olhou-me tristemente
     e com lágrimas na voz cantou
          -- não fala assim meu menino
               Deus não faz filho mulato

Rui Burity da Silva
publicado por RAA às 10:55 | comentar | favorito