15
Fev 11

ADAGIO

As folhas d'oiro, uma a uma,
Vão os plátanos despindo;
Ouço-as na álea caindo
Numa cadência de espuma...

Mais uma, negra, se abate,
Como bacante já lassa:
Rolando quase me bate
Num agoiro de desgraça.

Erguem-se agora ligeiras,
Lá partem, rentes do chão,
Todas juntas em fileiras,
Numa brusca emigração.

Sobre as áleas alagadas
Parecem almas sem nome
Que leva pra além dum rio
Caronte de mãos geladas...

Dezembro abre com fome
A goela de vazio...

Alexandre d'Aragão
publicado por RAA às 23:45 | comentar | favorito

HOJE FARPADO

A pólvora etérea
na cinza das balas
a história dos homens
nos homens deitados
o tempo em espera
no beijo dos mortos
a história dos homens
nos homens sem corpo
e nós meu amor
em súbito alarme:

um guarda exterior
com olhos de arame.

Fernando Alvarenga
publicado por RAA às 14:20 | comentar | favorito
15
Fev 11

SAUDADE MINHA

Minha saudade as cousas transfigura
Num estranho delírio semelhante
Ao desse eterno cavaleiro-andante
Paladino do sonho e da loucura:

Minha saudade é fonte que murmura
E em seu cantar humilde e marulhante
Mata a sede que abrasa o caminhante
Só de o embalar na líquida ternura...

Minha saudade os mundos alumia,
Os mortos ressuscita e é um sol-nascente
Doirando ainda as trevas da agonia;

Minha saudade é a força misteriosa
Que torna cada cousa em mim presente
E a minha dor presente em cada cousa.

Anrique Paço d'Arcos
publicado por RAA às 12:17 | comentar | favorito