29
Mar 11
29
Mar 11

CANTIGA SUA EM FAVOR DO CUIDADO.

    Leuo gofto em padeçer,
leuo gosto em fofpyrar,
leuo gosto em me perder,
mas cuidar no qua de ffer
dante mão me quer matar.

    Mas nunca farey mudãça,
porque quanto mais penar,
tanto muy mayor lembrança
leyxarey quando leyxar
vyda tam fem efperança.
Cuydar faz adoeçer,
cuydado defefperar,
cuydado me faz morrer,
mas porem torno a vyuer,
como poffo fofpyrar.

D. Joam de Meneses
publicado por RAA às 12:31 | comentar | favorito
28
Mar 11

...

De um Trácio é agora o meu belo escudo.
Que havia eu de fazer? Perdi-o na floresta-
Mas salvei a minha pele, no aceso da luta.
Sei bem onde comprar um escudo novo.

Arquíloco

(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 17:15 | comentar | favorito

EIS-ME NAVEGADOR...

Eis-me navegador. Um sonho abarco.
A Vida é Mar, a Vida é toda um Mar.
E quem tem alma e sabe o que é sonhar
-- há-de lançar às águas o seu barco.

Heróis -- Fernão, Colombo, Gama, Zarco!
Mistério, assombro, -- a vaga, a noite, o luar,
o espaço, o vento, a chuva, a nuvem, o ar...
-- Adonde a calma, o rumo, o porto, o marco? --

Mas uma força interna me estimula
para que eu vença a onda e o vendaval,
tanto mais quando o vento brame, ulula

e o Mar ameaça abrir o hiante seio...
Eu tenho a fé e o sonho de Cabral
em busca do Brasil do meu anseio!

Geraldo Bessa Victor
publicado por RAA às 14:17 | comentar | favorito
28
Mar 11

LÁGRIMAS

As cristalinas lágrimas vertidas
Pela noite nas águas tenebrosas
São no abismo profundo convertidas
          Em pérolas radiosas...
Mas as pérfidas lágrimas caídas
Desses teus olhos lânguidos e ardentes,
No meu peito amoroso recolhidas,
          Só geraram serpentes...

António Feijó
publicado por RAA às 11:36 | comentar | favorito
27
Mar 11

CANÇÃO

Vem surgindo a madrugada.
Entro agora num dancing.

Numa guitarra que tange
Oiço a mágoa do meu sonho.

Há vestígios de batalha:
Nódoas de vinho,
E alguns pratos
Com restos de carne, -- e o cheiro
A tabaco e a febre e a flores
Paira
Na sala como um cansaço...

Triste,
Vou lembrando os meus amores.

Além,
Naquela mesa do fundo,
Naquela mesa redonda,
Um homem
Descasca uma tangerina
E vai beijando e mordendo
A mulher franzina e feia
Que ao pé dele fuma e sorri...

Vou lembrando os meus amores!

E até me lembro
Daqueles
Que partiram para sempre...

--Mas, não me lembro de ti.

António Botto 
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito
27
Mar 11

Cafurnas


autor: m. parissy (pseudónimo de Mário Galego, Nazaré, 1969)
título: Cafurnas
prefácio: Jaime Rocha
edição: do Autor
local: Nazaré
ano: 2002
págs.: não numeradas [24]
dimensões: 18x14,5x0,2 cm. (brochado)
capa: foto de José Delgado
impressão: Graficar, Carvalhos
tiragem: 500
obs.: duas fotos em extratexto: Jaime Rocha com Lawrence Ferlinghetti na Rua da Bonança; "Mizé Gandaio observando pinturas de Silvino Espalha"; exemplar numerado: 256 / 500
publicado por RAA às 16:37 | comentar | favorito
26
Mar 11

O LIMITE

Limita-se um país pelas fronteiras;
limita-se a falhar quem não acerta;
limita-se o meu céu a ter três letras;
limita-se o farelo nas peneiras.

Limita-se uma vida ao seu destino;
limita-se o trabalho ao seu efeito;
limita-se o Meu Deus a ser perfeito;
limita-se a ser Deus quem é divino.

Limita-se esta noite se me deito;
limita-se a palavra ao som do ritmo;
limita-se o instinto ao preconceito.

Limita-se esta dor se não a grito;
limita-se o amor depois de eleito;
limita-se uma recta ao Infinito!

Ulisses Duarte
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito
26
Mar 11

...

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso neste impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.

Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.

Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.

Manuel de Freitas
publicado por RAA às 15:55 | comentar | favorito
25
Mar 11

FIM DO MUNDO

Todos os jornais darão edições especiais
E ainda um bonde terá tempo de colhêr um transeunte.
O Presidente dirá palavras de confôrto à Nação.
Os bombeiros ficarão a postos
Como à espera dos grandes cataclismos.
À falta de luz eléctrica os homens usarão querosene
Em candieiros alados.
O poeta se perderá em cogitações
De interêsse particular.
Um telegrama esclarecerá pequenos detalhes:
-- As agulhas das bússolas ficarão desnorteadas
E os sinais telegráficos perder-se-ão no espaço.
Além do mais algumas estrêlas cairão sôbre o mar
-- Parnasianas.
E entre palmas e gritos dos espectadores
A ressurreição da carne será anunciada.

Antônio Rangel Bandeira
publicado por RAA às 16:55 | comentar | favorito
25
Mar 11

...

De manhã, pela manhã,
No feliz campo de feno,
Oh, fitaram-se um ao outro
À luz do dia sereno.

Na manhã de azul e prata
Sobre o feno se deitavam,
Oh, fitaram-se um ao outro,
E seus olhares desviavam.

A. E. Housman


(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 14:28 | comentar | favorito