03
Mar 11

A MATÉRIA DO SONETO

                                         à memória de Artur António da Silva Lino
                                        ao camarada
                                        ao amigo

Este soneto é feito de vertigens,
curvo corvo mordido pelo fogo.
Doze bocas de cidra são virgens
que não voltam mas dizem até logo.

Há corpos enforcados em carroças,
ombros gráceis a arder por sob as tranças.
E mulheres que nunca foram moças
deitam sapos nos olhos das crianças.

Este soneto é beco de poetas,
um pouco de veneno nas tabernas;
aqui rangem fantasmas, morre gente.

Este soneto cheira a meias pretas:
é papoila de cal, sebo das pernas,
oh flor sangrada, ovos de serpente.

Fernando Grade
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito

PAÍS NATAL

Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,
Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma.
Revejo a minha infância,
Toda cheia de alegrias:
Eu corria pelo mato,
Espiava os animais selvagens,
Sem medo;
E olhava os lavradores nos campos,
E, no mar, os pescadores,
Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe,
E que eu, atento, seguia com o olhar:
Como gostava de o ver no oceano
Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!
(Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu país natal!)

António Baticã Ferreira
publicado por RAA às 14:28 | comentar | favorito
03
Mar 11

OFÍCIO DE VIVER

Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

Ledo Ivo
publicado por RAA às 12:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito
02
Mar 11
02
Mar 11

DOS MORCEGOS

Em aparecendo os morcegos
tudo se volta do avesso,
com vento sudoeste as nuvens
cavalgam sem tom nem som.

Cinzento céu, fazes passar
uma ideia fantástica do mar.
Vento fustigante, sabes decorar
as memórias inexactas do tempo.

Vento violento, rente ao mar
no Março findo, cheio de viúvas
e candente de estrelas ao alvorecer.

Dos morcegos a cega sinfonia
corre pelos telhados, onde iria
um monge de costas tentar ver.

José Carlos González
publicado por RAA às 23:24 | comentar | favorito