26
Mai 11
26
Mai 11

NIGHT IN TUNISIA

Um piano corre solto
como um louco no deserto.

Cada palavra em pó se espalha
a noite cai como um consolo.

Treme túnica rouca
na aventura dessa estrada.

Um murmúrio exato enterra
no deserto a noite clara.

Palavra vaga e falha
um noite em lua brada.

Trama toada louca
na raia atormentada.

Um sábio exótico se devora
enquanto o sol chove lá fora.

Frederico Barbosa
publicado por RAA às 11:15 | comentar | favorito
25
Mai 11

À TARDE

Não sei o que há de indefinível, vago,
          Na morna luz da tarde,
Que nos envolve de um etéreo afago
          E como que nos arde.

De nós então parece que se evola
          Um fumo de ansiedade
Que tímido cantando ascende e rola
          Em busca da Verdade...

Rui de Noronha
publicado por RAA às 14:18 | comentar | favorito

...

Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler.
E a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler.
Uma página por dia.
Uma página de boa prosa.
Uma pauta de sinfonia aquiliniana, um fresco dum vasto painel de Paço
                                                                          [d'Arcos (Joaquim).
Ler, ler, ler -- era só o que eu queria.
Na paragem da Carris, podia ser.
Foi nessa altura que ganhei o hábito de fugir ao almoço.
Para ler, ler, ler.
Voltado para a parede, para não aturar chatos e ler a sós com o meu livro.
Depois, deixei de saber falar.
Cada encontro um contratempo, uma irritação, um aborrecimento.
Ler, ler, leer!
Mas pouco para dizer, e nada para escrever.

30-X-2006
publicado por RAA às 12:48 | comentar | favorito
25
Mai 11

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny
publicado por RAA às 10:49 | comentar | favorito
24
Mai 11

FOLHA SOLTA

Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura,
pois se vos aborrece, me tortura
ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadais-vos; parece-vos que, enquanto
meu amor se lastima, vos censura;
mas sendo vós comigo áspera e dura,
que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
ido o rigor que em vosso peito mora,

a mudança será para nós dois:
e então, podereis ver, minha senhora,
que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

Vicente de Carvalho
publicado por RAA às 17:06 | comentar | favorito
24
Mai 11

LES MAÑANES

Toles mañanes ye igual: una muyer
en bata asomando a la ventana.
Una muyer que ve coches aparcaos,
el carteru que vien cargáu
coles factures del bancu,
la plaza onde la vida
vei reblincar más tarde,
cuando de la escuela
lleguen los nenos
y la tarde vaya siendo
la promesa d'un mañana cotidiano
-- hermano del calor y la ropa fresco.

Pero un día acordar del sueñu
vai tener taste a nada,
a llechi rancio, a casa hai años zarrada
y que naide quixo alquilar.

El que sala a la ventana vei ver
cómo los díes encubrieron el cielu,
como pela plaza pasea, impúdica,
la estraña figura de la muerte.

Xuan Bello
publicado por RAA às 11:12 | comentar | favorito
23
Mai 11

...

Sedia la fremosa seu sirgo torcendo,
sa voz manselinha fremoso dizendo
               cantigas d'amigo.

Sedia la fremosa seu sirgo lavrando,
sa voz manselinha fremoso cantando
               cantigas d'amigo.

-- Par Deus de Cruz, dona, sei eu que avedes
amor mui coitado, que tan ben dizedes
               cantigas d'amigo.

Par Deus de Cruz, dona, sei [eu] que andades
d'amor mui coitada, que tan ben cantades
               cantigas d'amigo.

-- Avuitor comestes, que adevinhades.

Estêvão Coelho
publicado por RAA às 12:51 | comentar | favorito
23
Mai 11

...

Minha alma quer-te, ainda que em tortura,
E sigo-te alegre na ânsia de procura.
Que estranho, ser defesa a nossa ligação,
Se os desejos ambos concordaram!
Que quereria mais o coração
Quando amargurado te buscou em vão
E meus olhos te viram e amaram?
Como desejo que quem tem poder
Sobre ti em nosso encontro não esteja!
Só assim a minha sede se vai beber
Em doce fonte se teus lábios beija.

Ibn 'Ammar
(Adalberto Alves)
publicado por RAA às 11:34 | comentar | favorito
22
Mai 11
22
Mai 11

ERA UMA VEZ...

À noite para adormecer
O lobinho na floresta,
A mãe loba conta histórias
E outro dia contou esta
O Capuchinho Vermelho
Certo dia, indo só
Atravessou a floresta
P'ra ir visitar a avó
Entreteve-se a falar
Com uns bichos brincalhões
Apareceu um grande lobo
E viu-se em complicações
E a mãe loba terminou
A história já conhecida
Em que o lobo por ser mau
Com um tiro perde a vida
Assustadinho a valer
Diz que já não quer crescer
Deitadinho ao pé da mãe
É que o lobinho está bem.

Isabel Lamas
publicado por RAA às 23:06 | comentar | favorito
21
Mai 11
21
Mai 11

Cidades de Refúgio

autor: Mário Avelar (Lisboa, 1956)
título: Cidades de Refúgio
colecção: «The Impossible Papers»
editora: Black Sun Editores
local: Lisboa
ano: 1991
págs.: 24
dimensões: 17x12,60,2 cm. (brochado)
capa: Baptism in Kansas, de John Stewart Curry (reprodução parcial)
impressão: Tipografia Freitas Brito, Lisboa
tiragem: 300
publicado por RAA às 23:56 | comentar | favorito