02
Jun 11

LÍRICA PARA UMA AVE

Num céu de chumbo e baionetas
caladas,
sobre uma floresta de sono
e demência,
tonta, esvoaça perdida
uma ave sangrenta.
Na turva e opressa manhã
se anuncia a cólera
do tempo.

Na hora
da aurora,
gemem ventos,
fluem surdos rios.

Cerra os olhos,
cala na garganta
a voz,
acorda audível
o pensamento:

No escuro cerne da floresta,
com sorrisos dependurados à entrada,
degola-se uma ave.
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossível.

Rui Knopfli
publicado por RAA às 23:29 | comentar | favorito

O PARADOXO DO VIAJANTE

Penso nos lugares aonde não mais voltarei:
não para dizer que neles se encerrou
o que deles ou através deles eu poderia ter sido.
Apenas para lembrar
que nunca lhes poderei dizer adeus.

Luís Filipe Castro Mendes
publicado por RAA às 14:56 | comentar | favorito
02
Jun 11

JÚBILO

Há um presságio de júbilo
à sua beira, um tecido
na trama do contrário

Uma rosa de mar
na sua esteira, uma espécie
de ardil em seu afago

Um modo
Um todo
Uma maneira

De misturar
o doce
e o amargo

Maria Teresa Horta
publicado por RAA às 12:24 | comentar | favorito