03
Jun 11

...

Alongado no leito, e a noite silenciosa,
Mal eu cansados olhos ao repouso dava,
Quando o cruel Amor me agarra p'los cabelos,
Me acorda e manda que em su' honra eu vele.
«Ó escravo meu, me diz, ó tu que a mil amaste,
Sòzinho jazes só, ó duro peito, aqui?»
Descalço e semi-nu, atiro-me p'ra fora,
Pelos caminhos vou, sem que caminho encontre.
E sigo sempre, e paro, e no parar hesito
Entre a vergonha de ir e o tédio de voltar.
Calam-se humanas vozes, e da rua os ruídos,
Ave nenhuma canta, e sequer ladram cães.
De tudo, apenas eu me atrevo a estar desperto,
Obedecendo ao império, Grande Amor, de ti.

Petrónio

(Jorge de Sena)
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03
Jun 11

CONFISSÃO

No silêncio pesado do caminho,
ouviu-se um passo, cadenciado
na firmeza das horas decisivas.

A sentinela bradou:
                              -- Quem vem lá?...

O Homem podia ter respondido
qualquer coisa parecida
com: «gente de paz»...

Mas não. Onde a paz,
se no seu peito ardiam agonias
enraivadas,
se nos seus olhos boiavam
visões de fogo e de morte,
e as suas mãos,
(ó belas, generosas mãos!)
vinham ainda tintas
dos sangue dos camaradas?...
Não trocou portanto as falas.

Respondeu simplemente, sombriamente:
                   -- EU!

E a sentinela, varou-o com três balas.

Lisboa, 1949 (Maio)

Alda Lara
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