08
Jun 11

NO TÚMULO DE UM ASTRÓNOMO

Amei demasiado as estrelas
do céu nu que percorri a dedo,
para que a noite, onde brilham, belas,
em mim seja surto de algum medo.

Eugénio Lisboa
publicado por RAA às 23:39 | comentar | favorito

UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL

Vejo-o velho
anarquista digno
e austero casaco
abotoado sem
gravata nem
dentes.


Quase pede licença para falar.


Chega-me um
hálito de morte
com a sua voz
sumida. Não me importa
tanto o que diz
nem como o diz.
A figura é tudo.

24-V-2003
publicado por RAA às 12:49 | comentar | favorito
08
Jun 11

ETERNO SÍMBOLO

Aureolado da opala, o topázio, a ametista
que o sol occíduo põe na agonia da tarde,
o monte que de légua, ou de léguas, se avista,
do amplo juso à cimeira, em pedrarias arde.

À sumptuosa mudez não há olhar que resista,
nem ao quieto esplendor quem se não acobarde.
Um silêncio de luz lhe vai da base à crista:
é o féretro da pompa, é o túmulo do alarde.

Em tal fulguração, translúcido, irradia
e essa translucidez que é apenas ilusória,
deixa ver que há um Além, além da fantasia.

Desce lenta, entretanto, a noite merencória...
Queda-se a natureza, amortalhada e fria,
na saudosa visão de um momento de glória.

Emílio de Meneses
publicado por RAA às 11:39 | comentar | favorito