22
Jun 11

A PÓSTUMO

Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.

Marcial

(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 14:24 | comentar | favorito

...

os dias passam por ele
sem que ele dê pelo passar dos dias por ele

adoece e não sabe que é o fim
abana a cauda e sucumbe
ao tiro no crânio
                  com espanto
à injecção letal
                  em paz

27-I-2003
publicado por RAA às 12:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
22
Jun 11

J. B. DIAS, NO LEITO DO HOSPITAL

Tudo aqui é branco
A cama e os lençóis
E o mosaico que brilha...
Tudo aqui é branco
As batas e os enfermeiros
O tecto que não olho
E a arrastadeira...
Escuro aqui só eu
Bola preta que rola
No travesseiro lavado.
Parece-me estar a ouvir os enfermeiros:
O doente do número treze,
O doente do vinte e quatro...
E o doente preto.
Tudo aqui é branco.
Tudo, menos eu.
De manhã a enfermeira
Tira-me a temperatura.
É velha ou nova, bonita ou feia?
É branca.
«Senhora enfermeira, dê-me a sua mão»
Ai o negro de Michael Gold.
Eu não peço a mão à enfermeira.
Aqui tudo é branco
Tudo aqui é branco
Menos esta bola preta
Em que os olhos se escondem.
«Formas alvas, formas brancas...»
Serão assim os versos?
Ah, que importa isso agora?
Julgo que vou morrer
Morrer assim sozinho
Sozinho no meio de tantas coisas brancas
Que giram, que giram à minha volta.
«Formas alvas, formas brancas»
«A sua mão, enfermeira»
Batas brancas, parede, tecto, tudo
Branco, branco, branco...
A morte será branca?

                                                                                                     Coimbra, 1950 (1951?)

Antero Abreu
publicado por RAA às 11:39 | comentar | favorito