17
Jul 11

NEBULOSA

Certo passado audaz, revivo
apenas, sob um céu menos escuro:
se eu vivo para o futuro
quer dizer que já o vivo.

Futuro!
Quando te posso ver, por ti plena aurora,
condena-te a presença,
és este agora
que eu possuo
como a abelha suga a rosa;
e sem que o resto me importe...

Mas antes ou depois ver-te ou pensar-te
é ver uma nebulosa...
-- é como pensar na morte...

Edmundo de Bettencourt
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17
Jul 11

Sob a Noite Física

autor: Carlito Azevedo
título: Sob a Noite Física
editora: Livros Cotovia
local: Lisboa
ano: 2001
págs.: 65
dimensões: 20,5x13,1x0,7 cm. (brochado + sobrecapa vegetal)
capa: João Botelho
impressão: Tipografia Guerra, Viseu
tiragem: 750
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16
Jul 11
16
Jul 11

...

A loba é um bicho estranho, um vizinho
atarefado, que trabalha para um desígnio estranho
e obsessivo ___ como pensar noutra coisa, construir
outra cabana se o meu sono deixou de ser
um ovo, uma ilha? Perco-me neste arquipélago demente
e cheio de remoinhos _____ ainda ouço ao longe
o canto da cigarra, ainda não perdi
a lembrança de que sou um homem
embora mais antigo do que são os homens
que se julgam poderosos. Se vêm à minha mão
as aves do velho paraíso
alguma coisa escutarão no meu ombro
cansado ____ sou um homem antigo
e venho de muito longe, de matéria ondulantes
mais antigas ainda, vestígios num olhar
onde se reflectem montanhas
mais distantes ainda : ainda
que me detenha no meu jardim
contemplando as cerejeiras
a sombra do meu corpo antigo
caminha sem mim
de casa em casa,
de feira em feira.

Casimiro de Brito
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14
Jul 11

...

Olha essas flores. São, assim
Regadas pela dádiva da chuva,
Como que estrelas num céu de jardim
Devagar tombando uma a uma.

Furtivamente querendo escutar
Dir-se-ia que um génio de espuma
Procurou saber o seu segredo
E se desfolharam para o castigar.
E eis que a mão da brisa em seu enredo
Sobre o inquieto dorso do arroio
Caprichou em bolhinhas de enfeitar.

Ibn Al-A'lam As-Santamari

(Adalberto Alves)
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14
Jul 11

A UM ADOLESCENTE

Faze do instante que passa
toda a tua inspiração,
que o mundo cheio de graça
caberá na tua mão!

Sê sóbrio: com um copo de água,
um fruto e um pouco de pão,
nem sombra de leve mágoa
cortará teu coração...

Ama a rude terra virgem,
com todo o teu rude amor:
pois colherás na vertigem
de cada sonho uma flor.

Sofre em silêncio, sòzinho,
porque os sofrimentos são
o mais saboroso vinho
para a sombra e a solidão...

E, quando um dia, o cansaço
descer ao teu coração,
une à terra o peito lasso
e morre, beijando o chão!

Morre assim como indeciso
fumo que nos ares vai,
morre num breve sorriso,
como uma folha que cai...

Ronald de Carvalho
publicado por RAA às 11:31 | comentar | favorito
13
Jul 11

...

Da Morte o gado somos, matadouro a vida.
A morte nos abate -- sabe Deus porquê.

Paladas

(Jorge de Sena)
publicado por RAA às 14:28 | comentar | favorito
13
Jul 11

MULATA

Graça feita de candura e de malícia,
Sabedoria da carne,
Animal vitorioso e generoso,
Vértice de experiências convergentes.
Equador de duas civilizações,
Tu, bela, tu, fecunda, tu, menina,
Primeira e magnífica descoberta,
Filha da História
(Filha do pecado?)
És zombeteira e triste.
Ponto,
Pêndulo,
Suspensão,
Carne retalhada
Por centrífugas forças que te chamam,
Cedo ou tarde nascida?
Cedo ainda?
Resíduo apenas?
Simbólica dança escultural da paz,
Ou virgem imolada no altar do fogo?
Caminhas e meus olhos perdem-se
Mais que nas linhas frementes do teu corpo,
Na luz oblíqua dos teus olhos pávidos.
Esplêndida encarnação do amor sem margens,
Tu, bela, tu, menina,
Mulata,
Interrogação da época.

1961

Antero Abreu 
publicado por RAA às 12:49 | comentar | favorito
12
Jul 11
12
Jul 11

CADERNO

As linhas das mãos
prolongam os veios (dos campos).
Alguém recolhe as últimas estrelas
(no outro lado do coração).
Nenhum agravo ou ferida.
Apenas um caderno aberto
ante o assombro da escrita.

Fernando Jorge Fabião
publicado por RAA às 21:22 | comentar | favorito
11
Jul 11

BRUEGHEL

Representados estão os meses outonais,
os rituais da caça, as parábolas
e os exorcismos, as peregrinações
e os horrores da carne na tela luminosa
do pintor que se senta a ver
dançar os camponeses e conta de babel
o tecido alucinante de mil línguas
fundindo-se em espirais de som

Pelas veredas abertas na neve
se evadem os caçadores e suas sombras
furtivas e trémulas e o pintor
à maneira de quem recorda um provérbio flamengo
tira do cerimonial das cores uma moral
justa e eterna: a felicidade do homem
é um tríptico incompleto
com pássaros vorazes planando em volta

José Jorge Letria
publicado por RAA às 23:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito (1)
11
Jul 11

CIDADE, RUMOR E VAIVÉM

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen
publicado por RAA às 14:40 | comentar | favorito